REUTERS/Kevin Lamarque
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Nomeado por Trump para Justiça vê em imigrantes ilegais ameaça à segurança

Jeff Sessions, conservador escolhido para um dos principais postos do governo coloca imigração irregular no mesmo patamar de crimes violentos e narcotráfico; analista vê retomada do discurso que justificou a ‘guerra às drogas’ entre os anos 80 e 90

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2017 | 05h00

O governo Donald Trump classificou a imigração ilegal como uma ameaça à segurança pública dos Estados Unidos e a colocou no mesmo patamar de crimes violentos e tráfico de drogas em decreto que trata do combate à criminalidade, assinado ontem pelo presidente. 

Em sua posse como novo secretário de Justiça, Jeff Sessions deixou claro que os estrangeiros que estão no país em condição irregular serão um dos principais alvos de sua gestão. “Nós temos de acabar com essa ilegalidade que ameaça a segurança pública e deprime os salários dos trabalhadores americanos”, afirmou.

Peter Reuter, professor do Departamento de Criminologia da Universidade de Maryland, diz nunca antes ter visto uma diretriz de governo que coloca a imigração ilegal ao lado de tráfico de drogas e crimes violentos. Mas ele observa que o decreto é desprovido de medidas concretas e parece mais uma declaração de intenções.

Segundo ele, a mesma característica está presente em outro decreto assinado nesta quinta-feira, 9, por Trump, sobre o combate a cartéis de drogas e organizações criminosas transnacionais. “É um documento extremamente vago, que não apresenta nenhum programa ou legislação novos. Parece uma repetição de promessas de campanha.”

Apesar de ter a mesma avaliação, Ethan Nadelmann acredita que o decreto é um sinal de que Trump retomará a “guerra às drogas” que marcou os anos 80 e 90, mas passou a ser questionada por líderes das Américas e entidades como a que dirige, a Drug Policy Alliance.

“O decreto é uma tentativa de agitar o temor do público em relação a crimes, drogas e organizações internacionais”, avaliou Nadelmann. “O objetivo é aplainar o terreno para a expansão e fortalecimento do complexo militar e repressivo dos EUA, a redução de liberdades civis e a adoção de uma postura mais agressiva em relação a governos estrangeiros, especialmente nas Américas.”

Trump acusa o México de não ser eficaz no combate à atuação dos cartéis de drogas, que alimentam grande parte do tráfico nos EUA. Em conversa telefônica que teve há pouco mais de dez dias com o presidente do México, Enrique Peña Nieto, ele ofereceu auxílio militar para combater o crime organizado no país vizinho.

“Você tem alguns homens muito duros no México com os quais você pode precisar de ajuda. Nós estamos dispostos a ajudar nessa grande liga, mas eles têm de ser abatidos e você não tem feito um bom trabalho em abatê-los”, disse Trump, segundo transcrição da conversa obtida pela agência Associated Press.

Na campanha, Trump descreveu os EUA como um país mergulhado na violência e na criminalidade. Repetindo o lema usado por Richard Nixon em 1968, ele se apresentou como o candidato da “lei e da ordem”. Mas estatísticas do FBI mostram que os índices de criminalidade dos EUA estão no mais baixo patamar em quatro décadas, apesar de um pequeno aumento em 2015 nos casos de homicídios e outros delitos violentos – roubos e furtos continuaram a diminuir. 

Na segunda-feira, Trump disse que o índice de homicídios é o maior em pelo menos 45 anos. Os dados mostram que a realidade é exatamente oposta. O número de assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes foi de 4,9 em 2015, menos da metade dos 10,2 registrados em 1980. O exagero na descrição do problema foi repetido ontem por Sessions em seu discurso de posse no Departamento de Justiça. “Nós temos um problema de criminalidade”, afirmou, fazendo referência ao aumento recente nesse indicador. 

Sem apresentar dados específicos, ele disse que sua experiência com a aplicação da legislação criminal o convenceu de que a alta de 2015 não foi um fato isolado. “É uma tendência permanente perigosa, que coloca a saúde e a segurança do povo americano em risco.”

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