Yuri Kochetkov/EFE
Yuri Kochetkov/EFE

Nos 100 anos da Revolução Russa, autoritarismo faz com que a história seja apagada

Ascensão de Lenin não é ensinada nas escolas; Kremlin tentaria "esconder" o movimento de 1917

Cristiano Dias/Enviado Especial a Moscou, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2017 | 00h24

Os comunistas assumiram o poder em 1917 e demonizaram o império. Depois, Joseph Stalin resolveu ressuscitar a reputação de alguns czares e mandou executar revolucionários como Leon Trotski e Nikolai Bukharin. Nikita Kruchev, que veio em seguida, descreveu seu antecessor como um genocida. Leonid Brejnev desfez a política de Kruchev, a quem acusava de autoritarismo. No apagar das luzes da União Soviética, Mikhail Gorbachev criticou Brejnev e Boris Yeltsin colocou a casa abaixo, mas sem propor nada de novo. 

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“Quando um governo tenta controlar a história, é porque pretende controlar o próprio povo”, diz Andrei Kolesnikov, pesquisador do Carnegie Moscow Center. “Isso é o que acontece na Rússia com a chamada ‘história de mil anos’ de Putin.” Kolesnikov se refere à nova abordagem do Kremlin, que defende a ideia de continuidade: a história russa seria uma linha reta entre príncipes, czares, secretários-gerais e presidentes que sempre lutaram pela identidade nacional. 

Assim, a população deve se orgulhar de fatos gloriosos, como a conquista da Crimeia, em 2014. Pelas ruas do país, até os mais moderados defendem a anexação e se referem ao leste da Ucrânia como “República Popular de Donetsk”. Os ucranianos refugiados da guerra são tratados como cidadãos russos – embora o governo não reconheça publicamente. “O problema dessa interpretação da história é que não dá para encontrar continuidade entre vítimas e carrascos”, afirma Alexei Sobchenko, analista independente que trabalhou para o Departamento de Estado dos EUA. “Isso faz a Revolução Russa ocupar um lugar inconveniente na narrativa oficial.”

O depoimento de uma professora do ensino médio dado ao Estado mostra o desconforto que o tema causa na sala de aula. “Não ensinamos a Revolução Russa na escola. Fazemos isto de maneira extracurricular, com alguma atividade em museus”, disse. A professora, que pediu para não ser identificada por medo de represálias do Estado, trabalha em uma escola pública de uma cidade nos arredores da capital. Ela conta que o dia 7 de novembro – data da revolução – sequer é mencionado nas aulas. “Agora, o dia nacional é o dia 4”, afirma. Em 4 de novembro de 1612, os russos libertaram o país do domínio polonês. Historicamente, o fato beira a insignificância em qualquer parte do mundo, mas foi o que os historiadores de Putin conseguiram encontrar para substituir um feriado pelo outro.

Nas grandes cidades, o ocaso da Revolução Russa é menos dramático, principalmente em escolas particulares. Denis Lanshchikov leciona no ensino médio de um colégio particular de Moscou. Segundo ele, há alguns anos, o governo russo tenta “esconder” o movimento revolucionário de 1917. “A diferença é que nós, que trabalhamos em escolas particulares, temos mais autonomia”, afirma. “Há uma diretriz básica. Mas, quando não concordamos, ensinamos o que achamos que é certo. A direção da escola faz um bom trabalho em esconder certas coisas do governo.”

A falta de padrão dá toques esquizofrênicos ao ensino de história na Rússia. Joseph Stalin, por exemplo, continua sendo o político mais popular do país. Segundo o instituto Levada, 40% dos russos tinham uma visão favorável do líder em dezembro do ano passado. Em 1994, quando a pesquisa foi feita pela primeira vez, o índice era de apenas 18% – o aumento coincide com a chegada de Putin ao poder. 

Por isso, muitos russos falam do nascimento de um neostalinismo com Putin. Em 2015, ele inaugurou um museu em Moscou para expor os horrores dos gulags, os campos de trabalho forçado que se espalharam sob a guarda de Stalin. Um lapso de bom-mocismo, segundo analistas e historiadores. “Na prática, o que se vê é outra coisa”, diz Kolesnikov. 

Em dezembro de 2013, durante coletiva em Moscou, Putin defendeu Stalin. “Qual a diferença entre ele e Oliver Cromwell?”, questionou, comparando o russo com o arremedo de ditador que governou a Inglaterra por cinco anos no século 17. Em Moscou, estátuas de Stalin voltaram a aparecer em parques e praças. Muitos perderam o constrangimento e hoje elogiam o homem que tirou a União Soviética do calvário rural e a lançou no espaço.

Na saída da escola, o garoto Genaddi que teve o seu nome real omitido a pedido da mãe –, de 14 anos, escuta atentamente a lista de personagens históricos desfiada pela reportagem. E reage só quando ouve o nome de Stalin. “Este eu conheço! É um herói que protegeu a União Soviética”, respondeu. Sobre a Revolução Russa, ele diz não se lembrar bem o que foi. “Lenin? Não, não conheço.”

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