AFP PHOTO / MANDEL NGAN
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Nos EUA, primeiro-ministro canadense defende refugiados

Justin Trudeau ouve de Donald Trump que é preciso barrar as ‘pessoas erradas’; premiê ressalta que seu país já recebeu mais de 40 mil refugiados sírios

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2017 | 21h06

Em sua primeira entrevista coletiva ao lado de Donald Trump, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, disse nesta segunda-feira, 13, em Washington esperar que sua política de abertura em relação a refugiados seja vista como um “exemplo positivo” pelo restante do mundo. A seu lado, o presidente dos Estados Unidos defendeu sua decisão de suspender o recebimento de refugiados: “Nós não podemos deixar que as pessoas erradas entrem”.

Ainda que de maneira diplomática, os vizinhos que compartilham uma fronteira de 8,9 mil km deixaram claras suas divergências em relação a uma questão humanitária que também levanta preocupações relacionadas à segurança nacional. Trudeau ressaltou que seu país já recebeu 40 mil refugiados sírios e afirmou que é possível adotar uma política de abertura sem que isso comprometa a segurança interna.

“A última coisa que os canadenses esperam é que eu venha aqui para dar sermão a outro país sobre como eles escolhem ser governados”, disse o primeiro-ministro quando questionado sobre o decreto de Trump que suspendeu o recebimento de refugiados e proibiu a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de sete países de maioria islâmica. “Meu papel, minha responsabilidade, é continuar a governar de maneira que reflita a abordagem dos canadenses e seja um exemplo positivo para o mundo.”

No dia em que Trump anunciou as medidas, Trudeau publicou no Twitter uma foto na qual aparecia recebendo uma criança síria, com a hashtag #welcometoCanada. Vários cidadãos do país se mobilizaram para receber refugiados, para os quais dão apoio material e fornecem ajuda no processo de adaptação à nova vida.

 

O decreto de Trump suspendeu o recebimento de refugiados de todo o mundo por um período de 120 dias. No caso da Síria, a interrupção é por tempo indeterminado. Segundo ele, as medidas são necessárias para evitar a entrada de terroristas nos Estados Unidos e dar tempo às autoridades para criarem mecanismos mais rigorosos de checagem dos perfis dos candidatos ao benefício. 

Os opositores do decreto, que está suspenso pelo Judiciário, afirmam que o processo em vigor já é bastante estrito e demora pelo menos um ano e meio para ser concluído. “Nós estamos recebendo tantos elogios por nossa posição e é uma posição de bom senso”, disse Trump. 

Em contraste com suas críticas ao México e à promessa de construir um muro na fronteira com o país, Trump propôs a criação de “pontes” com o Canadá – os três países integram o Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Uma das principais promessas de campanha do presidente americano foi a revisão dos termos do tratado econômico.

Na entrevista de hoje, Trump disse que o Nafta precisará apenas de alguns ajustes no caso do Canadá, país que é o principal destino das exportações americanas. De acordo com o presidente, no entanto, a situação da relação comercial com o vizinho do Norte é muito “menos severa” do que a existente com o México. Em 2015, os EUA exportaram US$ 337,3 bilhões para o Canadá e importaram US$ 325,4 bilhões. No caso do México, as vendas foram de US$ 267,2 bilhões e as compras, de US$ 316,4 bilhões.

Com 45 anos, Trudeau está distante de Trump no espectro político. Com ideias mais identificadas com a esquerda, ele comanda um gabinete marcado pela diversidade e é entusiasta de abertura e da globalização, elementos que o aproximavam do ex-presidente Barack Obama. Com 70 anos, Trump vê a globalização com suspeita e preside um gabinete formado principalmente por homens brancos e ricos.

 

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