ALFREDO ESTRELLA/AFP
ALFREDO ESTRELLA/AFP

COMO HACKEAR E FRAUDAR ELEIÇÕES NA AMÉRICA LATINA

Colombiano preso por espionagem relata pela primeira vez como influenciou votações em toda a América Latina por meio de fraudes online

Jordan Robertson, Michael Riley e Andrew Willis, BLOOMBERG

02 Abril 2016 | 05h00

BOGOTÁ - Era pouco depois da meia-noite quando Enrique Peña Nieto foi declarado o presidente eleito do México. A 3,2 mil quilômetros da Cidade do México, em Bogotá, o hacker Andrés Sepúlveda acompanhava tudo diante de seis computadores. Com a vitória, ele destruiu as provas: pendrives, discos rígidos, celulares e servidores foram inutilizados, enterrando os segredos de uma das campanhas eleitorais mais sujas da América Latina recente. 

Por oito anos, Sepúlveda, de 31 anos, tinha viajado pelo continente a serviço de candidatos de direita no México, Colômbia, El Salvador, Honduras, Venezuela e outros países. A carreira dele começou em 2005, com pequenos trabalhos como derrubar sites e hackear base de dados de doares de candidatos rivais.

 

Com o passar dos anos, ele reuniu equipes que espionaram, roubaram e difamaram candidatos por toda a América Latina. O serviço não era barato: variava de US$ 12 mil a US$ 20 mil por mês.  “Meu trabalho era fazer guerra suja e psicológica, propaganda negativa e espalhar rumores - o lado da política que ninguém sabe que existe, mas é perceptível”, diz Sepúlveda, condenado a 10 anos de prisão por espionar a campanha do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, à reeleição em 2014. 

O hacker diz que a maioria de seus projetos foi contratada pelo venezuelano Juan José Rendón, um consultor político conservador com base em Miami conhecido como “Karl Rove da América Latina. 

Rendón admite conhecer Sepúlveda, mas nega tê-lo contratado para projetos ilegais. “Eu conversei com ele uma ou duas vezes em um grupo de discussões sobre a internet”, diz. “Mas eu não faço nada ilegal. Há a campanha negativa, mas ela não é ilegal. Não sou um santo, mas também não sou nenhum criminoso.”

Segundo Sepúlveda, Rendón percebeu que hackers têm um papel crucial nas campanhas eleitorais modernas. O papel deles é lançar publicidade negativa, investigar o rival e desencorajar a participação nas urnas. O diferencial de Sepúlveda foi entender o poder de robôs virtuais para influenciar a discussão política na internet. Relativamente baratos, esses perfis falsos foram desenvolvidos com base em um programa criado por ele, o Social Media Predator.

Com o software, o hacker percebeu que poderia manipular o debate eleitoral como se movesse peças num tabuleiro de xadrez. “Quando eu percebi que as pessoas acreditam na internet mais do que creem na própria realidade, descobri que tinha o poder de convencê-las de qualquer coisa”, afirma.

Sepúlveda conta que seus pagamentos eram feito em dinheiro vivo. Ele viajava sozinho com documentos falsos e se hospedava em um hotel, onde montava seu equipamento e recebia orientações de seus contratantes. A linguagem das ordens frequentemente era em código: “agradar” significava atacar e “ouvir música”, grampear telefonemas. Com o fim da eleição, tudo era destruído. 

Para os projetos nos quais era contratado, Sepúlveda contava com hackers de diversos países americanos. Além de suas viagens, ele tinha uma equipe montada em Bogotá com brasileiros, argentinos, equatorianos e venezuelanos - cada um com uma atribuição específica. 

Dos 9 países em que trabalhou, apenas em um deles deixou de lado a discrição: a Venezuela. Na eleição de 2012, quando trabalhou para Henrique Capriles contra Hugo Chávez, ele hackeou o e-mail e o Twitter de Diosdado Cabello, um dos líderes do chavismo. Em 2013, ele invadiu o Twitter do presidente Nicolás Maduro. O governo venezuelano bloqueou o acesso à internet no país por 20 minutos depois da invasão.

“Sepúlveda diz que trabalhou comigo em 20 países, mas a verdade é que ele não fez isso”, acrescenta Rendón. “Eu nunca paguei a ele um peso colombiano.”

Prisão. A trajetória de  Sepúlveda acabou na campanha pela reeleição do presidente Juan Manuel Santos, na Colômbia. Em 2014, o hacker e JRendón seguiram caminhos distintos. O colombiano preferiu embarcar no projeto do ex-presidente Álvaro Uribe de condenar a negociação de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e eleger Óscar Zuloaga, enquanto o venezuelano foi trabalhar com Santos. Sepúlveda julgou que Rendón preferiu o dinheiro aos princípios conservadores. 

O hacker diz ter montado um plano com o chefe de campanha de Zuloaga, Luis Alfonso Hoyos, para desacreditar os relatos de Santos de que a violência diminuiu com as negociações de paz. Telefones e e-mails de ao menos cem guerrilheiros das Farc foram grampeados, entre eles o do chefe da guerrilha, Rodrigo Lodoño, o Timochenko.

Após conseguir ilegalmente documentos que mostravam as Farc pressionando camponeses a votar, Sepúlveda apareceu na TV colombiana para mostrar as provas. 

Um mês depois, ele foi preso por espionagem. Ele atribui sua prisão à falta de cuidado ao se expor em rede nacional. Por envolver-se ideologicamente com a campanha em seu país, deixou de obedecer a seus critérios corriqueiros de segurança em outros projetos. 

Sepúlveda foi levado à prisão de La Picota, em Bogotá. Dias depois de sua chegada, foi vítima de uma emboscada de detentos armados com facas. Foi salvo pelos guardas e, desde então, é protegido com coletes à prova de balas em uma cela vigiada. 

Após sua prisão, autoridades colombianas indiciaram Hoyos por espionagem, mas ele fugiu para Miami. Sempre que deixa o presídio em um veículo blindado, Sepúlveda está acompanhado de seis motocicletas. O sinal de celular ao longo do trajeto é bloqueado para evitar que ele seja rastreado. 

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