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Entrevista.

O ex-líder rebelde Antonio Navarro Wolff crê no sucesso das negociações na Colômbia, 'pois hoje as guerrilhas compreendem que não têm como ganhar a guerra'

'O acesso à vida política é o coração do pacto pela paz'

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DENISE CHRISPIM MARIN

ENVIADA ESPECIAL / BOGOTÁ

15 Junho 2014 | 02h 01

Senador eleito em março, o colombiano Antonio Navarro Wolff acredita que a negociação de paz em curso é o único meio de fazer as guerrilhas desaparecerem de seu país. Navarro Wolff, de 65 anos, tem bagagem para tratar o assunto. Um dos seis comandantes do M-19 (Movimento 19 de Abril), ele lutou nas selvas por 15 anos, perdeu uma perna em um atentado, viveu no exílio por quatro anos e tornou-se o principal negociador do acordo de paz selado em 1990. Desde então, segue uma carreira política de sucesso.

Wolff candidatou-se em dez eleições desde o acordo de paz assinado pelo M-19, que não previu prisão dos guerrilheiros e lhe permitiu ingressar na vida política. Perdeu apenas três delas - todas para a presidência da Colômbia.

O que move as Farc e o ELN a negociar a paz com o governo?

A convicção de que não vão ganhar a guerra. Há 14 anos, as Farc começaram a negociar com o governo de (Andrés) Pastrana, mas ainda acreditavam que poderiam vencer. Hoje, sua compreensão de que não têm como ganhar a guerra está expressa nos acordos parciais já fechados com o governo. E isso faz com que as negociações possam ter sucesso.

As Farc não são apenas uma guerrilha revolucionária, mas um grupo que comete crimes. Como lidar com essa questão nas negociações?

Quando as Farc começaram a negociar, há dois anos, pensei: esses caras estão como nós, do M-19, 25 anos atrás. Tínhamos bem claro que o acordo de paz dependeria dos cidadãos, que votam. Por isso, fizemos um cessar-fogo unilateral durante as negociações para ganhar o apoio popular. Conseguimos 28% dos votos para a Assembleia Constituinte um ano e meio após o acordo. As Farc ainda não perceberam a importância de se relacionar bem com o público e continuam matando.

A proposta do candidato Óscar Iván Zuluaga não poderia ter sucesso?

O processo de paz depende do resultado da eleição (de hoje). Se Santos vencer, haverá negociação com concessões básicas. Se Zuluaga ganhar, o processo vai ser completamente alterado. Zuluaga vende a ideia de que também quer a paz. Mas a guerrilha não aceita suas exigências de cessar-fogo unilateral, de prisão de seis anos para seus líderes e de bloqueio de acesso à política.

Essa posição pode ser entendida diante dos crimes praticados pelas Farc.

Por causa da polarização eleitoral, têm havido muitos exageros. As Farc não são o maior cartel de drogas do mundo. Mas controlam, cultivam e vendem drogas dentro do país. São um Estado ilegal nas zonas onde atuam. A guerrilha não é um exército de ocupação. Se fosse, o governo já as teria derrotado. As Forças Armadas têm superioridade estratégica e 300 mil homens para lutar contra 8 mil.

As Farc ainda mantém o ideal revolucionário?

Eles continuam acreditando na revolução comunista. Continuam na selva, mesmo tendo dinheiro.

As Farc merecem ter acesso à vida política?

O coração da negociação de paz está na possibilidade de os guerrilheiros ingressarem na vida política. As Farc controlam ainda 150 municípios, têm 8 mil soldados e dinheiro. Se o governo disser que eles não podem concorrer às eleições, será o mesmo que exigir sua rendição. É preciso dizer a eles que, se pretendem tomar o poder, o façam pela via eleitoral. Eles dificilmente serão eleitos. Seus líderes são muito torpes.

Que contribuição as Farc podem dar?

A deposição de suas armas. As últimas cinco eleições presidenciais giraram em torno da questão da negociação com a guerrilha ou da guerra. Pela quinta vez, estamos escolhendo um presidente com base nessas duas hipóteses. Já é hora de isso passar para a História. Voto em Santos porque a negociação é o melhor meio de as Farc desaparecerem.

Legalmente é possível conceder anistia e direito político e evitar a prisão dos guerrilheiros?

Em quase 200 anos de História, a Colômbia concedeu 76 vezes a anistia ou indultos a guerrilheiros. Mas, o país é membro do Tribunal Penal Internacional, que pode interferir porque as Farc têm menores entre seus militantes, o que é um crime de lesa humanidade. A brecha jurídica seria valer-se da Justiça Transicional, como fez a Inglaterra para firmar o acordo de paz com o IRA.

Mas os paramilitares foram para a prisão e não recuperaram seus direitos políticos, conforme o acordo de paz.

Eles combateram a guerrilha segundo a lógica do terror. Esses, sim, eram terroristas e se dedicaram a controlar prefeituras e a extorquir.

O senhor foi anistiado? O acordo de paz beneficiou os líderes do M-19?

Não fui anistiado porque não havia condenação penal contra mim. O governo apenas arquivou o processo.

Tinha medo de ser morto?

Sim, muito medo. Em 1985, eu já havia sobrevivido a um atentado quando tinha salvo-conduto, como chefe do comitê de negociação de paz com o governo de Belisário Betancourt. Em uma manhã, em Cali, um sujeito entrou na lanchonete onde eu tomava café e jogou uma granada debaixo da minha mesa. Abriu-se um buraco maior do que uma bola de golfe no meu pé esquerdo. Um estilhaço fincado na garganta, quase me matou e deixou metade da minha língua paralisada. Fiquei em um hospital por duas semanas, enquanto o (escritor Gabriel) García Marquez negociava com o governo do México o meu traslado. Jornalistas fizeram um abaixo-assinado para o governo de Betancourt me liberar. No México, a infecção na perna provocou um choque anafilático. Então, pedi que amputassem minha perna. Desde então, uso uma prótese.

Por que o senhor preferiu a via da luta armada?

Em abril de 1970, houve uma fraude escancarada na eleição presidencial. Eu não apoiava o candidato derrubado, um general conservador. Mas era um jovem engenheiro e consultor internacional e como muitos jovens da época, queria mudar o mundo.

Arrepende-se de algo desse período?

A História mostrou que estávamos errados. Me arrependo apenas de não ter feito o acordo de paz antes, em 1984.

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