O aviso do bolivariano

Abalado pelo câncer, que o levou ao bisturi três vezes em menos de um ano, e forçado a abreviar sua agenda em função da saúde delicada, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, enfrenta a eleição mais crítica de seus 13 anos no poder. Há quem afirme, como o antenado blogueiro Nelson Bocaranda, citando fontes médicas e especialistas, que o comandante da revolução bolivariana teria no máximo dois anos de vida.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

25 Março 2012 | 03h05

Mas quem imagine um candidato murcho e prestes a jogar a toalha vermelha pode tirar sua boina. Em demonstração eloquente do seu arsenal de artifícios e seu despudor em sacá-los, Chávez esta semana superou-se. Regressado de Cuba, onde extraiu o terceiro tumor canceroso em oito meses, o líder venezuelano foi ao ar e semeou uma tempestade. No programa francamente governista Dando y Dando, da emissora de televisão estatal VTV, soltou entre as piadas de costume que o candidato oposicionista à presidência, Henrique Capriles, corre risco de vida.

Disse ainda que seus "órgãos de inteligência" procuraram o governador de Miranda para informar-lhe do suposto complô e oferecer-lhe proteção. O tom da entrevista foi casual, quase intimista. Malandro. Um recadinho ao estilo do flanelinha que insinua preocupação para achacar o motorista incauto: "Cuidado, doutor, aqui é perigoso".

Chávez especulou ainda que a trama toda não passe de uma artimanha da própria oposição, dedicada a incitar uma "tremenda confusão" antes da votação.

A reação do azeitado engenho de boatos venezuelano foi instantânea. Foi uma ameaça velada do próprio governo Chávez, entregue ao vivo, já com o álibi preventivo, do tipo "bem que avisei"? Ou será a confissão do comandante bolivariano de que não controla mais o antielitismo que há anos se dedica a provocar? Ou, quem sabe, uma combinação tóxica dos dois?

A intriga, claro, é o recurso essencial do chavismo. É o pão de cada dia, em um país onde falta do leite à luz. E Chávez, mesmo debilitado, sabe distribuí-lo com maestria, mantendo desequilibrados seus rivais e pretensos herdeiros com doses certas de desinformação e terrorismo moral.

Não é a primeira vez que Chávez passa recados aos desafetos. Em 2006, também revelou um suposto plano para assassinar Manuel Rosales, o popular governador de Zulia e candidato ao Palácio de Miraflores. Chávez ganhou o pleito, mas ainda queria mais. Acusado pela Justiça chavista de corrupção, Rosales fugiu e pediu asilo no Peru. Tornou-se uma lombada a menos na estrada do socialismo do século 21.

Hoje os obstáculos a Chávez multiplicam-se. Nunca o projeto bolivariano esteve tão acuado. A gastança e o sequestro político da máquina pública desorganizaram a economia nacional, derretendo a bonança do petróleo em plena disparada do preço do barril. A inflação passa de 25% ao ano, a pior da América Latina. Os homicídios triplicaram entre 1998 a 2009.

Contra esse marasmo, surgiu Capriles, que já encosta em Chávez nas pesquisas de intenção de voto. A contraofensiva chavista tem timbres cada mais estridentes e confusos. A mídia estatal já acusou o jovem governador, de ascendência judaica, de sionista e nazista. Homens armados atiraram a esmo durante um comício seu. A eleição será tudo menos tediosa.

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