O conflito em Jerusalém é nitidamente moderno

As disputas em relação a Jerusalém ocorrem há milhares de anos, mas o conflito atual é uma história que pertence exclusivamente ao século 20

Mona Boshnaq, Sewell Chan, Irit Pazner Garshowitz e Gaia Tripoli, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 05h00

Em dezembro de 1917, o general britânico Edmund Allenby apoderou-se do controle de Jerusalém. que estava em mãos dos otomanos. O militar apeou de seu cavalo e entrou na Cidade Velha a pé, pelo do Portão de Jaffa, em respeito ao local considerado sagrado.

No século anterior, Jerusalém fora foco de disputas de diferentes formas, não apenas por judeus, cristãos e muçulmanos, mas também por poderes externos e, claro, israelenses e palestinos dos dias atuais.

As disputas em relação a Jerusalém remontam a milhares de anos, mas o conflito atual é uma história nitidamente do século 20, com raízes no colonialismo, no nacionalismo e no antissemitismo.

1917-48: Mandato Britânico da Palestina

“Para os britânicos que Jerusalém foi tão importante – foram eles que estabeleceram Jerusalém como uma capital”, disse Yehoshua Ben-Arieh, geógrafo e historiador da Universidade Hebraica. “Antes, não era a capital de ninguém.”

As três décadas de domínio britânico que se seguiram à entrada de Allenby em Jerusalém viram a grande chegada de colonos judeus atraídos pela visão sionista de uma pátria judaica, enquanto a população árabe local se ajustou à realidade do colapso do Império Otomano, que governava a cidade desde 1517.

“Paradoxalmente, o sionismo recuou de Jerusalém, em particular da Cidade Velha", disse Amnon Ramon, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisas Políticas de Jerusalém. “Primeiramente porque Jerusalém foi considerada um símbolo da diáspora e, em segundo lugar, porque os santuários do cristianismo e do islamismo eram vistos como elementos complicadores que não permitiriam a criação de um Estado judaico com Jerusalém como sua capital.”

Muitos dos primeiros sionistas eram socialistas europeus seculares, motivados mais por preocupações sobre nacionalismo, autodeterminação e fuga de perseguição do que pelas visões religiosas.

“Jerusalém era um lugar isolado, uma regressão a uma cultura conservadora da qual eles estavam tentando se afastar", afirmou Michael Dumper, professor de política do Oriente Médio na Universidade de Exeter na Inglaterra. “Tel-Aviv foi a luminosa cidade nova em uma colina, o resumo da modernidade.”

Ele disse aos árabes: "Ainda restava algo do choque de não estar mais no Império Otomano. Houve uma reordenação de sua sociedade. A aristocracia palestina local, que compunham as grandes famílias de Jerusalém, surgiu como liderança do movimento palestino nacional, que de repente defrontou-se com a imigração judaica”.

A oposição a essa imigração alimentou vários levantes mortíferos dos palestinos, enquanto os judeus se irritavam com o domínio britânico e as restrições à imigração impostas em 1939 - restrições que impediram muitos judeus que fugiam do Holocausto de entrar. Após a 2ª Guerra, em 1947, as Nações Unidas aprovaram um plano de divisão que previa dois Estados - um judaico e um árabe - com Jerusalém governada por um “regime internacional especial" devido ao seu status único.

1948-67: Uma Cidade Dividida

Os árabes rejeitaram o plano de divisão e, um dia depois que Israel proclamou sua independência, em 1948, os países árabes atacaram o novo Estado. Foram derrotados.

Jerusalém foi dividida: a metade ocidental tornou-se parte do novo Estado de Israel (e sua capital, segundo uma lei israelense aprovada em 1950), enquanto a metade oriental, incluindo a Cidade Velha, era ocupada pela Jordânia. “Para os palestinos, isso foi visto como um ponto de encontro”, disse Dumper.

Israel e Jordânia, disse ele, estavam bastante concentrados em outros lugares. Israel construiu suas prósperas áreas costeiras, incluindo Haifa, Tel-Aviv e Ashkelon, enquanto o rei jordaniano, Abdullah I, se concentrou no desenvolvimento de Amã, capital da Jordânia.

No início, o Estado israelense hesitou em concentrar-se demais em Jerusalém, por pressão das Nações Unidas e das potências europeias, de acordo com Issam Nassar, historiadora da Universidade Estadual de Illinois.

1967-93: Duas Guerras e Uma Intifada

Nenhum evento moldou tanto a disputa moderna sobre Jerusalém quanto a guerra de 1967, na qual Israel não só derrotou tropas árabes, mas também assumiu o controle da Faixa de Gaza e da Península do Sinai, que pertenciam ao Egito; da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, que eram da Jordânia; e das Colinas do Golan, pertencentes à Síria.

As imagens de soldados israelenses rezando pela primeira vez após a conquista no Muro das Lamentações, ao qual lhes tinha sido negado o acesso durante o domínio jordaniano, ficaram gravadas na consciência nacional de Israel.

“Jerusalém tornou-se o centro de uma devoção semelhante a um culto que não existia antes”, disse Rashid Khalidi, professor de estudos árabes modernos na Universidade de Columbia. “Isso já foi transformado em fetiche num grau extraordinário, já que o nacionalismo religioso de linha dura passou a predominar na política israelense, com o Muro das Lamentações como seu foco”.

A vitória em 1977 do partido Likud, de direita, sob a liderança de Menachem Begin, ajudou a consolidar essa nova ênfase em Jerusalém como parte integrante da identidade de Israel. Os colonos religiosos tornaram-se mais proeminentes na vida política de Israel, iniciando uma longa ascensão que nunca realmente foi interrompida. Os socialistas da velha guarda, com raízes na Rússia e na Europa Oriental, deram lugar a uma população mais diversificada - e também mais religiosa - de israelenses com origens no Oriente Médio, no Norte da África e outras regiões.

Como parte dessa mudança, a importância simbólica de Jerusalém se intensificou. Seu papel na história judaica foi enfatizado em desfiles militares e currículos, estudantes de todas as partes de Israel foram levados a visitas escolares. Esse processo culminou em 1980, quando os legisladores aprovaram um projeto de lei declarando que “Jerusalém, completa e unida, é a capital de Israel”.

1993- Presente: Oslo e Além

Os Acordos de Oslo, de 1993, determinaram a criação da Autoridade Palestina para governar a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, adiando uma resolução sobre questões fundamentais: fronteiras, refugiados e status de Jerusalém. Quase um quarto de século depois, as perspectivas de um acordo de paz duradouro parecem cada vez mais inatingíveis.

Uma visita do político de direita Ariel Sharon, em 2000, ao complexo sagrado conhecido pelos judeus como o Monte do Templo e pelos muçulmanos como o Nobre Santuário - que abriga a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha - desencadeou violentos confrontos e levou a uma segunda revolta palestina que tirou a vida de cerca de três mil palestinos e mil israelenses ao longo de cinco anos.

Os palestinos dizem que os colonos judeus invadiram Jerusalém Oriental e Israel agravou o problema revogando as permissões de residência. Mesmo assim, a composição étnica da população de Jerusalém continuou sendo de cerca de 30% a 40% árabe.

“Toda a comunidade internacional concordou que a anexação e colonização israelenses de Jerusalém Oriental desde 1967 é ilegal e se recusa a reconhecer Jerusalém como a capital de Israel”, disse Khalidi. “Se Trump mudar essa posição, dada a importância de Jerusalém para os árabes e os muçulmanos, é difícil ver como possível um acordo palestino-israelense sustentável ou uma normalização árabe-israelense duradoura”. / Tradução de Claudia Bozzo

 

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