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Ambiente de divisão e raiva entre eleitores americanos contamina debates essenciais

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RICHARD N. HAAS, PROJECT SYNDICATE*,
O Estado de S. Paulo

25 Março 2016 | 05h00

As eleições presidenciais americanas estão ainda distantes e é impossível saber com certeza quais serão os indicados para representar os principais partidos, e muito menos quem será o 45º inquilino da Casa Branca. Mas não é cedo demais para avaliar o clima entre os mais de 320 milhões de habitantes do país e qual será o significado para o vencedor ou a vencedora da disputa que o mundo em geral deve considerar uma interminável novela política.

Neste momento, o clima predominante nos EUA é de grande ansiedade, quando não de ira. O Washington Post publicou recentemente uma série de artigos que revelam a fúria popular contra Wall Street, os muçulmanos, os acordos comerciais, Washington, as mortes provocadas pela polícia, o presidente Barack Obama, os republicanos, os imigrantes e outros mais.

Um dos piores epítetos que se pode dar a uma pessoa hoje é “político profissional”. Os beneficiários desse estado de espírito são os candidatos contrários ao governo que defendem estratégias opostas ao livre comércio e à reforma da imigração, e exigem uma reformulação radical da atual política fiscal e de gastos. Os detalhes do que eles pretendem pode diferir, mas as plataformas compartilham da mesma promessa de afastamento radical do status quo.

A base desse pensamento não fica tão evidente, porque a situação do país é bem melhor, do ponto de vista econômico, em relação à de uns seis ou sete anos atrás, imediatamente após a crise financeira e econômica de 2007-2008. Desde então, foram criados mais de nove milhões de empregos, os juros permaneceram baixos (tornando os empréstimos para a aquisição de casas e automóveis mais acessíveis) e a queda do preço da gasolina já equivale a um corte dos impostos de US$ 700 para a família americana média. Além disso, o mercado acionário cresceu cerca de 200% desde seu declínio sete anos atrás e milhões de pessoas passaram a ter cobertura para assistência médica.

Entretanto, essa boa notícia econômica é ofuscada em muitos casos pelo fraco crescimento da renda familiar, que permanece estagnada em termos reais (corrigidos levando-se em conta a inflação) há cerca de 15 anos. 

A porcentagem de americanos que trabalha em tempo integral ainda não chegou ao patamar de sete anos atrás. E muitos temem que seus empregos desapareçam por causa da concorrência externa, das novas tecnologias ou pela “emigração” de inúmeras empresas em busca de impostos e mão de obra mais baratos.

Um grande número de americanos tem uma expectativa de vida maior, mas repleta de ansiedade, por não ter economizado o suficiente para garantir uma vida confortável na aposentadoria. Alguns pagam seguros saúde que antes podiam evitar em razão da reforma implementada por Obama.

Há também a questão da desigualdade, um motivo de efetiva revolta, mas o problema não é tanto a desigualdade (que, embora tenha se agravado, não é nenhuma novidade) quanto a redução das oportunidades. O sonho americano está sendo substituído pela consciência de classe – uma mudança profunda num país fundado no ideal de que todos podem melhorar de vida pelo trabalho árduo.

Mas os motivos dessa ansiedade e da ira transcendem as realidades e as preocupações econômicas. Há também a insegurança física, por causa da criminalidade ou pelo medo do terrorismo. Em muitas comunidades, teme-se também pelo destino da cultura e da sociedade.

Os modernos meios de comunicação tendem a mostra uma situação pior. As pessoas sintonizam cada vez mais os canais a cabo ou as páginas da internet que reforçam seus pontos de vista e sua ideologia, o que está longe de ser tranquilizador. 

Entraves. O clima nacional transcende a campanha eleitoral e representará um desafio concreto para o novo presidente e o Congresso. As divisões internas de cada partido e entre o Partido Democrata e o Republicano exigirão concessões e a formação de coalizões essenciais quase impossíveis.

As preocupações com a aposentadoria e o acesso à assistência médica farão com que seja muito mais difícil a reforma da previdência, embora sua expansão deva contribuir para elevar a dívida nacional a níveis recordes. O livre comércio é considerado a causa da redução dos empregos e está perdendo apoio, embora, por outro lado, tenha permitido a criação de novos postos de trabalho e de uma maior possibilidade de escolha para os consumidores – além de fortalecer a posição estratégica dos EUA no mundo. A imigração, que desde sempre faz parte da herança do país e é fonte de valiosos talentos, hoje é objeto de tão grande controvérsia que as perspectivas de reforma nessa área são sombrias.

O clima atual nos EUA poderá também intensificar a preocupação das autoridades com os problemas internos. Já desencantados com o envolvimento no exterior na esteira das intervenções no Iraque e no Afeganistão, cujo custo superou seus feitos, muitos americanos estão céticos em relação ao que os EUA podem realizar no exterior. Frustrados com os aliados que julgam não fazerem jus às responsabilidades assumidas, cada vez mais estão convencidos de que o governo precisa se preocupar menos com o mundo e mais em consertar o que há de errado nos EUA.

Alguns, em outros países, lerão indubitavelmente tudo isso com satisfação, mas, acima de tudo, grande parte do mundo considerará essas notícias ruins. Será menos provável que uma América distraída e dividida esteja disposta e em condições de liderar a tarefa de promover a estabilidade no Oriente Médio, na Europa ou na Ásia ou de fazer frente aos desafios globais. Contudo, sem a liderança dos EUA, esses desafios dificilmente poderão ser enfrentados, transformando-se em graves problemas ou, pior ainda, em crises. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO POLÍTICO DO DEPARTAMENTO DE ESTADO AMERICANO, PRESIDENTE DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS E AUTOR DO LIVRO ‘A WORLD IN DISARRAY’, ATUALMENTE NO PRELO

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