'O governo de Bashar Assad protege os cristãos'

Líder religioso afirma que regime da Síria protege a comunidade cristã, perseguida por radicais do Estado Islâmico no país

Entrevista com

Jean-Abdo Arbach, arcebispo de Homs

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

15 Março 2015 | 02h02

O arcebispo de Homs, Jean-Abdo Arbach, qualifica a Primavera Árabe - especialmente em relação à guerra civil síria e à ascensão do Estado Islâmico (EI) - como o "princípio da 3.ª Guerra Mundial". De passagem pelo Brasil para relatar aos católicos do País a perseguição que os cristãos têm sofrido na Síria, o religioso evitou falar de política - alegando temer por sua segurança. Em entrevista ao Estado, porém, revelou ser partidário do presidente Bashar Assad, pois seu governo "sempre ajudou os cristãos e todas as pessoas sem exceção, até os muçulmanos sunitas".

Qual é a situação do cristianismo hoje na Síria?

Até o fim de 2014, 31 igrejas tinham sido destruídas. Este ano, outras igrejas, no norte, foram destruídas. Mas os cristãos celebram as missas nas igrejas danificadas ou, por exemplo, em Homs, em um sótão. Apesar de tudo, todos domingos celebramos a missa ali e as pessoas vêm. Apesar de todas as dificuldades, celebramos missa, tocamos sinos, vamos à igreja com liberdade e o governo nos protege.

O que a perseguição religiosa ocasiona para os cristãos?

Temos agora 500 mil cristãos sírios que fugiram do país em razão da perseguição. E outros 500 mil que mudaram de suas casas para outros vilarejos ou cidades (na Síria) mais seguros. No mês passado, 200 assírios foram sequestrados.

Qual foi o resultado desses sequestros? Mataram as pessoas?

A maioria, mataram, segundo soubemos. Há também muitos sequestrados que não sabemos se estão vivos ou mortos. Tive na minha diocese 16 sequestrados - não sabemos nada deles há mais de três anos.

É somente o Estado Islâmico que pratica essa perseguição?

E quem mais?

Antes da guerra civil, como era a convivência entre muçulmanos e cristãos na Síria?

Era pacífica, mais livre, havia diálogo, respeito. Mas a Primavera Árabe mudou os limites e pôs medo nos cristãos.

Na sua opinião, a Primavera Árabe favoreceu a perseguição religiosa no Oriente Médio?

Sim. A Primavera Árabe é um plano para o Oriente Médio, com suas condições, seus motivos e seus objetivos. Sobre quem está por trás disso, não podemos falar.

Como agem os radicais em relação aos não muçulmanos?

Quando eles chegam a uma cidade, já sabem quem é quem. Entram de madrugada e logo começam a dizer que as mulheres têm de se cobrir, que as pessoas precisam pagar jizya (imposto para que não muçulmanos possam viver em comunidades islâmicas). As pessoas têm medo.

E matam a população?

Às vezes, sim. Se não aceitam as condições.

O governo ajuda a manter a fé cristã na Síria?

Antes da guerra, durante a guerra e até agora, o governo sempre ajudou os cristãos e todas as pessoas sem exceção, até muçulmanos sunitas. É um governo para todos, isso sim. Não podemos dizer que o governo se alia com um ou com outro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.