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Internacional

Barack Obama

O herdeiro dos Castros?

Visita de Barack Obama a Cuba põe em evidência perfil de vice-presidente Díaz-Canel

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Mimw Hitefield, Nora Gomez Torres e Glenn Garvin,
Miami Herald

25 Fevereiro 2016 | 08h22

Quando o presidente Barack Obama visitar Cuba, no próximo mês, certamente será fotografado ao lado de Raúl Castro, cujo rosto é sulcado pelas rugas deixadas, ao longo dos seus 84 anos, pelas cerca de seis décadas durante as quais ele e o irmão, Fidel, governaram a ilha. Será interessante observar se outro personagem cubano será incluído nas fotos.

Miguel Díaz-Canel é supostamente o rosto da Cuba do futuro. Raúl o indicou em 2013, quando anunciou que deixaria a presidência no dia 24 de fevereiro de 2018 – e posteriormente a Assembleia Nacional confirmou a nomeação de Díaz-Canel ao cargo de primeiro-vice-presidente do Conselho de Estado.

“O camarada Díaz-Canel não é um novato, nem uma solução improvisada”, afirmou Raúl. A nomeação para a segunda maior posição no governo de Cuba colocou Díaz-Canel na trajetória de futuro chefe de Estado cubano. Raúl não chegou a declarar que Díaz-Canel o sucederia na presidência, mas o propósito pareceu claro. Raúl era primeiro vice-presidente quando assumiu a mais alta posição do país no lugar do irmão doente, em 2008.

Uma reunião com Obama será a mais segura indicação de que Díaz-Canel, de 55 anos, desafiará as lições dos livros de história cubanos. Os textos estão repletos de nomes de homens que se acreditava, um dia, pudessem substituir os Castros e, no entanto, foram destinados ao exílio interno ou coisa pior.

Caso Díaz-Canel se torne presidente, o que isso significará realmente numa ditadura marxista governada, não pelos eleitores, mas pelos militares e pelo Partido Comunista? “Se Raúl Castro é o presidente, é o presidente que governa Cuba”, disse Jaime Suchiki, diretor do Instituto de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade de Miami. “Se Raúl Castro não é presidente, a questão é totalmente diferente. Díaz-Canel não tem tanques nem tropas.”

Caminhos. Praticamente todos os que tentam ler os sinais das instituições políticas secretas de Cuba concordam que a grande mudança deverá vir pela forma de oposição mais inexorável para os Castros, o calendário. Os homens que combateram na revolução hoje têm bem mais de 80 anos, ou, como Fidel, 89 anos, já às margens da vida política pelas enfermidades próprias da idade. Embora Raúl tenha prometido em 2013 que deixaria a presidência, não se referiu à sua renúncia do cargo de chefe das Forças Armadas cubanas e do Partido Comunista.

Sólidas credenciais partidárias marcam Díaz-Canel. Em 1997, ele se tornou o mais jovem membro do Politburo da história cubana, o comitê de 14 membros do partido que assessoram diretamente Raúl.

Entretanto, caso persista alguma dúvida a respeito do poder real que os Castros estão dispostos a ceder, existe um amplo consenso quanto ao fato de que o colapso político e econômico da Venezuela, o país benfeitor de Cuba, obrigará a ilha a buscar investimentos externos e aliar-se a outros governos. E isso exigirá pelo menos alguns gestos em termos de relações públicas internacionais para convencer o mundo de que Cuba está indo além de um Estado familiar.

Gerações. A aparência física não é o único sinal das três décadas de idade que separam os Castros de Díaz-Canel. Ele usa jeans e jaquetas esporte, não o uniforme militar. Canta músicas de rock’ n’ roll, carrega um tablet debaixo do braço e está no Facebook. A dois meses de completar 56 anos, o político começa a deixar a meia-idade. Mas representa uma mudança fundamental de padrões numa liderança cubana de octogenários.

Os irmãos Castro fizeram tentativas anteriores de estabelecer uma geração mais jovem de líderes, mas sempre recuaram. Carlos Lage, um ex-vice-presidente, e dois ministros do Exterior – Felipe Pérez Roque e Roberto Robaina – foram considerados herdeiros da liderança cubana, mas cada um deles foi descartado por mostrar sinais de uma ambição inadequada.

Díaz-Canel, engenheiro elétrico e burocrata de carreira, teve o cuidado de evitar a autopromoção. Ele criou fortes vínculos com os irmãos Castro durante o serviço militar, quando – segundo um ex-membro das Forças Armadas que serviu numa unidade semelhante – participava de um destacamento que fazia a segurança pessoal de Fidel e de Raúl.

Díaz-Canel logo recebeu uma série de encargos importantes tanto no governo quanto no Partido Comunista. Depois de deixar sua marca na União da Juventude Comunista, com cerca de 25 anos foi nomeado em 1987 elemento de ligação do partido com a Nicarágua – aliado-chave de Cuba no Hemisfério Ocidental.

A partir daí sua carreira foi uma alternância entre postos nos altos escalões – como o de Ministro da Educação Superior – e funções cada vez mais importantes no partido. De 1994 a 2003, foi um dos chefes regionais do partido, membro de pequenos, mas influentes, grupos, primeiramente na Província de Villa Clara, no centro de Cuba, e depois na Província de Holguín, no leste da ilha.

Estilo. O vice-presidente é um ávido leitor dos jornais rigidamente controlados do país. Frequentemente convida repórteres para acompanhá-lo em suas viagens ao interior e às vezes telefona sugerindo pautas. Em Villa Clara, foi o âncora de um programa de rádio. Seu interesse estende-se além do jornalismo para o campo das artes – promoveu festivais de rock e mostras de artes quando muitos funcionários de alto escalão ainda consideravam esses eventos degenerados e subversivos.

Mas também tomou o cuidado de agradar a seus patrões. Certa vez, quando Fidel Castro anunciou de manhã cedo que faria uma visita-surpresa à cidade de Santa Clara, conseguiu encher a Praça da Revolução da cidade com uma multidão que aclamou o líder em sua chegada.

Díaz-Canel continuou seu hábil trabalho após a nomeação ao cargo de primeiro-vice-presidente de Cuba, em 2013. Seus discursos, repletos do jargão marxista e slogans revolucionários, raramente contêm alguma inovação. Até suas críticas cautelosas à censura da imprensa oficial – o “secretismo”, como a definiu – só eram feitas quando Raúl Castro levantava o mesmo assunto. Mas inevitavelmente contêm frequentes elogios aos líderes. Num discurso na Cidade do México, em 2014, mencionou seus nomes cinco vezes.

Embora os Castros tenham puxado o tapete sob os pés de prováveis sucessores antes, fazer isso no caso de Díaz-Canel seria uma surpreendente retratação. Nos últimos três anos, ele viajou inúmeras vezes não somente pela ilha, mas também pelo mundo como símbolo dos novos rumos políticos de Cuba. Esteve numa cúpula sobre mudanças climáticas em Paris e até num encontro em Pyongyang com o líder norte-coreano, Kim Jong-un. Visitou os centros de poder do mundo todo e os pontos mais atrasados em termos políticos, sempre em contato com líderes.

Curiosamente, o vice-presidente tem sido muito menos acessível aos diplomatas estrangeiros em Havana, onde o ritmo da normalização das relações com os Estados Unidos, nos últimos dois anos, deixou grande parte do governo desconcertado e aparentemente sem uma direção sobre como proceder.

Díaz-Canel também pareceu distante dos funcionários diplomáticos americanos até o ano passado, quando repentinamente se tornou disponível a conversas com congressistas americanos que visitaram Cuba depois do anúncio de que Washington e Havana reatariam as relações diplomáticas.

Se o vice-presidente se tornar de fato o líder de Cuba, nem seus partidários mais otimistas esperam que ele trace um rumo radicalmente diferente para o país. “Será que ele mira a economia de mercado? Eu diria que sim”, disse o ex-analista da inteligência López Levy, cuja mãe foi uma das professoras universitárias de Díaz-Canel. “Será que ele desmantelará o sistema unipartidário? Não acredito.”

“Todo mundo sabe que uma abertura política, no atual contexto, seria suicida.” TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*MIMW HITEFIELD, NORA GOMEZ TORRES E GLENN GARVIN SÃO JORNALISTAS

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