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O importante destino da Ucrânia

*Thomas  L. Friedman - The New York Times

05 Julho 2014 | 02h 03

Não é preciso buscar moderados; todos votaram para pôr o país ao lado dos mercados livres

O jornal The Guardian reportou no domingo que os ucranianos realizaram um financiamento coletivo para custear o primeiro "drone popular" com o objetivo de ajudar seu Exército a conter a infiltração de rebeldes apoiados pelos russos nas províncias do leste da Ucrânia.

"Na semana passada o site de Crowdfunding (financiamento coletivo) da Ucrânia, The People's Project, informou ter recebido o montante de doações necessário para financiar um drone, informou The Guardian.

"Os organizadores originalmente esperavam comprar um drone de última geração israelense por US$ 165.000, ou um americano, mais barato, por US$ 120.000. Mas no final conseguiram fabricar um drone por apenas US$ 35.000. Um inventor e outros voluntários criaram a estrutura em colaboração com um instituto militar ucraniano que forneceu o equipamento técnico.

Bom para eles. O destino da Ucrânia é importante - do mesmo modo, e talvez mais, que o da Síria e do Iraque. Não temos de buscar "moderados" na Ucrânia. Milhões de indivíduos ali lutaram e votaram para colocar seu país ao lado dos mercados livres e os cidadãos livres da União Europeia.

Na sexta-feira em Bruxelas, o presidente recentemente eleito da Ucrânia, Petro Poroshenko, assinou um pacto comercial com a União Europeia que estabelece a redução da tarifa sobre as exportações ucranianas para o mercado da UE, formado por 28 países, e em troca a Ucrânia adotará reformas com o objetivo de ter mais transparência, combater a corrupção e controlar a qualidade para sua economia se equiparar aos padrões ocidentais. Foi o mesmo acordo que o predecessor de Poroshenko, Viktor Yanukovich, recusou-se a assinar em novembro por pressão do presidente russo, Vladimir Putin. A recusa desencadeou uma revolução na principal praça de Kiev que no final derrubou Yanukovich e provocou uma rebelião por parte de separatistas no leste da Ucrânia. Por isso, apenas algumas horas após a assinatura do acordo, o vice-chanceler da Rússia, Grigori Karasin, segundo a agência de notícias Interfax, advertiu que o acordo teria "graves consequências".

Realmente? Pense nisto. Uma nação ameaçando a outra por ter assinado um acordo comercial esperando aumentar a renda da sua população, muito inferior àquela de seus vizinhos, como a Polônia, que aderiu à União Europeia após o colapso da União Soviética. Entendo que os russos não queiram que a Ucrânia se associe à Otan, aliança que ainda se destina a conter o poder russo.

Eu me opus à expansão da Otan no final da Guerra Fria e não apoiaria isso hoje. Mas um acordo comercial que nem mesmo leva a um ingresso automático na União Europeia? É deste modo que a Rússia assevera sua condição de potência? Mantendo seus vizinhos na pobreza e famintos de energia? Afirmei em maio que Putin havia "pestanejado" quando, após a adoção de sanções impostas pelos países ocidentais, retirou suas tropas na fronteira com a Ucrânia, esperando impedir a eleição de Poroshenko e a assinatura do acordo com a UE. Mas, embora não tenha invadido a região, ele enviou armas e representantes para o leste da Ucrânia para fomentar o separatismo nas áreas de língua russa.

Sanções. Hoje, Poroshenko, farto das mentiras de Putin, deslocou suas forças para retomar o controle do leste da Ucrânia e o direito de decidir o futuro do seu país. Putin claramente teme novas sanções. É o momento de Estados Unidos e União Europeia as imporem.

Ao negar aos ucranianos o direito de escolher sua trajetória econômica e política, Putin mostra o quão estúpido e astuto é ao mesmo tempo. É estúpido quando acredita que, neste mundo conectado de cidadãos que conquistaram recentemente seus direitos, ele pode desfrutar da mesma "esfera de influência" que a Rússia teve na Europa Central na época dos czares. Sinto muito. Se um líder deseja ter uma esfera de influência hoje - nesta era de "povos de influência" - ele só o conseguirá pelo modo como se comporta, ou pela força. Putin é incapaz de conquistar essa esfera de influência mudando seu comportamento e no momento não ousa usar a força. Os czares nunca precisaram lidar com povos de influência que conseguem financiar coletivamente seu próprio drone.

Mas Putin também é astuto. Como afirmou o analista russo Vladimir Frolov no The Moscow Times, "O presidente Putin pode não alcançar seu objetivo de desfazer o acordo de associação firmado pela Ucrânia com a UE, mas internamente já se beneficiou da sua estratégia política no caso da Ucrânia, recompondo o debate nacional da Rússia. Seu principal êxito foi eliminar toda discussão profunda sobre as alternativas futuras para a Rússia. Há menos de um ano havia ainda espaço político para se debater novas alternativas democráticas dentro do sistema de Putin".

Mas a captura da Crimeia pela Rússia e sua guerra de representação na Ucrânia "transformaram um debate saudável sobre o desempenho presidencial de Putin numa discussão tóxica sobre a guerra e os inimigos da Rússia. A propaganda de Moscou pintou a revolta popular na Ucrânia contra a captura do Estado por uma camarilha corrupta num golpe fascista patrocinado pelos Estados Unidos", disse Frolov.

Portanto, se Putin "está combatendo os nazistas na Ucrânia, então, por extensão, qualquer um que discorde dele pode ser um colaborador nazista e um inimigo da Rússia. E isso fecha o espaço político para todas ideias alternativas na Rússia, exceto a de um império revisionista hostil ao Ocidente". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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