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O Islã contra o Islã

Conflitos entre fundamentalistas e reformistas reflete choque de visões de mundo do ponto de vista teológico e político

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SAHID JAVED BURKI,
O Estado de S. Paulo

22 Fevereiro 2016 | 05h01

Os tumultos tomaram conta de grande parte do mundo muçulmano. Na Síria, uma guerra brutal já provocou a morte de 250 mil pessoas, desalojou metade dos 21 milhões de habitantes do país e um milhão de sírios fugiu para a Europa em busca de asilo. No Iêmen, a tribo dos Houthis se insurgiu contra o governo e agora é alvo de ataques aéreos liderados pelos sauditas. Conflitos como esses são causados por inúmeros fatores, especialmente os conflitos entre as seitas islâmicas sunita e xiita e entre fundamentalistas e reformistas.

O regime alauita do presidente sírio Bashar Assad desfruta do apoio de potências xiitas, em particular do Irã, cuja influência regional depende da manutenção de regimes xiitas no poder. Exatamente por isto as potências sunitas – particularmente a Arábia Saudita – estão empenhadas em derrubar o regime iraniano. Ao passo que o governo do Iêmen é formado por sunitas e tem o respaldo da Arábia Saudita, daí os bombardeios contra os Houthis xiitas apoiados pelo Irã. Desse modo não é surpresa a intensificação das tensões entre Irã e Arábia Saudita que culminou na ruptura das relações diplomáticas por causa da execução pela Arábia Saudita de um clérigo xiita em janeiro.

O caos provocado por esses conflitos e a instabilidade em outros países na região, como Afeganistão e Iraque, possibilitaram a ascensão de algumas forças realmente desprezíveis, a começar pelo Estado Islâmico (EI). Este grupo se tornou tão influente que os generais dos Estados Unidos pediram autorização ao presidente Barack Obama para aumentar o número de tropas que lutam contra a organização. Além disso, há notícias de que os EUA podem adiar a retirada dos seus soldados do Afeganistão, onde uma guerra cada vez mais brutal contra o governo permitiu ao Taleban conquistar território e abriu espaço para o Estado Islâmico começar a operar ali. O EI também penetrou no Paquistão.

O aspecto religioso dos conflitos que hoje devastam o Oriente Médio é uma importante razão pela qual é tão difícil neutralizá-los. O cisma entre sunitas e xiitas remonta ao ano 632, quando o profeta Maomé morreu sem indicar como a comunidade islâmica deveria escolher seu sucessor. Para os que se tornaram xiitas o sucessor devia pertencer à família imediata do profeta e eles defendiam a escolha de Ali Ibn Abi Talib, primo e cunhado de Maomé. Os que seguiram o caminho sunita defendiam a escolha de um sucessor entre os membros mais velhos da comunidade, como Abu Bakr, que havia sido o auxiliar mais próximo de Maomé.

Hoje, grande parte dos 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo é sunita e essa população está muito dispersa, espalhada numa vasta faixa de terra que vai do Marrocos até a Indonésia. Depois de décadas de migração para Europa e América do Norte, hoje existem comunidades sunitas sólidas em vários países ocidentais.

Quanto aos xiitas, são 225 milhões de fiéis e estão mais concentrados geograficamente. O Irã, com 83 milhões, é o maior país de predominância xiita do mundo, seguido pelo Paquistão, com 30 milhões e a Índia com 25 milhões. O “crescente xiita” – que inclui o Irã e seus vizinhos imediatos Afeganistão, Azerbaijão, Iraque, Paquistão e Turquia – representa 70% da população da seita.

Essa distribuição geográfica é resultado de uma série de fatos históricos, uma combinação de conquistas e conversões (com frequência forçadas). Embora o islamismo tenha chegado ao Irã por meio da conquista, em 637-651, o país só adotou oficialmente o xiismo depois de quase um milênio, com o Xá Ismail I, da dinastia Safavid iniciando em 1501 a conversão forçada da população sunita do país.

O xiismo se estendeu para o sul da Ásia com as repetidas incursões militares dos persas que penetraram no Afeganistão e Índia. Hoje a população xiita desta região está concentrada em áreas urbanas e compreende no geral os descendentes dos soldados e outros funcionários de governo que permaneceram nos territórios conquistados.

O islamismo sunita foi propagado no sul da Ásia pelos santos sufis, muitos deles vindos da Ásia Central, que pregavam uma forma mais tolerante e aberta de islamismo do que a adotada na Península Arábica. Mas a influência crescente da Arábia Saudita após a década de 70, quando a disparada dos preços do petróleo contribuiu para aumentar a riqueza do país, contribuiu para impulsionar a difusão da austera seita wahabi predominante no reino saudita.

Além de atrair milhões de trabalhadores muçulmanos do sul da Ásia, a Arábia Saudita financiou a criação de madraças wahabistas ao longo da fronteira entre Paquistão e Afeganistão. O Taleban, tanto no Afeganistão como no Paquistão, é produto desses seminários, como também milícias como a Lashkar-e-Taiba e Lashkar-e-Jhangvi, que perpetraram ataques contra centros religiosos na Índia.

A convulsão que observamos hoje reflete um choque de visões de mundo tanto do ponto de vista teológico como político. Os sunitas conservadores e os que acatam a crença wahabi defendem um governo autoritário autocrata, ao passo que os sunitas sufi, mais moderados, preferem sistemas políticos liberais e abertos. Do mesmo modo que os xiitas. No Irã há muito tempo prevalece um governo teocrático, mas hoje o país parece propenso a reformas. Quanto a saber se a divisão sectária será um dia superada, isto dependerá de os reformistas conseguirem exercer influência suficiente nos dois campos. Caso contrário o conflito continuará, acelerando o colapso da ordem regional que observamos hoje. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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