O jogo perigoso na Síria

No imbróglio mortal que foi se avolumando, no espaço de poucos meses, ao redor da Síria, um novo ator faz ouvir sua voz: a Turquia. Evidentemente, a Turquia já estava lá, mas ambígua, tenebrosa, esquiva. É claro que ela se declarou hostil aos assassinos delirantes do Estado Islâmico particularmente numerosos no norte da Síria e no norte do Iraque.

É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2015 | 02h02

Na realidade, ela dirigiu seus ataques não contra o EI, mas contra uma parte de sua própria população: os curdos do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ou contra os marxistas-leninistas do DHKP-C (Frente Revolucionária de Libertação do Povo). Ancara desejava também abater o regime sírio de Bashar Assad.

Hoje, os turcos "começam a mostrar a cara". Eles ficaram exasperados pelo fato de os russos terem decidido, após alguns dias, intervir diretamente no conflito sírio. Curiosamente, a Turquia, como a Rússia, exibe a mesma hipocrisia, mas por objetivos opostos.

Ancara afirma ser inimiga do EI, mas na realidade poupa o EI e ataca os curdos. Moscou afirma também bombardear o EI, mas, na realidade, ataca as brigadas do Exército da Conquista, uma coalizão militar apoiada pelos turcos que busca infligir o golpe de misericórdia ao seu inimigo: o tirano que reina na Síria, em Damasco, Bashar Assad.

Em suma, sob o pretexto de atingir o EI, a Turquia golpeia os curdos, enquanto Moscou, também sob o pretexto de bombardear o EI, visa na realidade ao Exército da Conquista que ameaça o aliado Assad. É ao redor de Assad, portanto, que se intensifica a disputa entre Turquia e Rússia: a Turquia quer a queda do líder. A Rússia, ao contrário, faz de tudo para que ele permaneça, mesmo que seus métodos de governo sejam asquerosos e ele esteja coberto do sangue de seus próprios súditos.

São essas as jogadas que se ocultam por trás da atual guerra de nervos entre turcos e russos. Ancara se indignou ontem pelo fato de aviões russos, que supostamente deveriam bombardear o EI, se voltarem na realidade contra as forças que ameaçam Assad, sobrevoando em duas incursões o espaço aéreo turco perto do céu da Síria.

Em seguida, os russos afirmaram que os dois "erros" se deveram às "más condições meteorológicas". Ancara replicou: nada disso, o céu estava límpido. Haveria, segundo Ancara, uma provocação dos russos. O Ocidente e a Otan - da qual a Turquia faz parte - logo tomaram o partido de Ancara. Reiteraram que, ao contrário do que Putin diz, as incursões russas visavam às posições de Hama, Homs e Idlib, ou seja, tropas que atacam Assad, não posições do EI.

Vocabulário. Os membros da aliança, reunidos em caráter de urgência em Bruxelas, qualificaram como "extremamente perigosas" essas incursões russas no céu da Síria, retomando uma linguagem que data da Guerra Fria. Outra iniciativa confirma até que ponto a situação é perigosa. Religiosos da Arábia Saudita fizeram um apelo aos países árabes para que apoiem o combate a Assad e seus aliados russos e iranianos. Assim, recompõem-se os dois campos em guerra na região: de um lado, os sunitas, treinados pelos sauditas e pelo Catar, e apoiados pelos turcos. Do outro, os xiitas, agrupados ao redor do Irã, apoiados pela Rússia e indulgentes com Assad.

São essas as sutilezas, os absurdos e as contradições do jogo vertiginoso que está se jogando na Síria e ao seu redor. E há ainda uma pequena complicação. O Exército da Conquista, que é o segundo componente militar da rebelião síria e tem apoio logístico da Turquia, é formado por dois grupos principais: a Frente Al-Nusra e o grupo Ahrar al-Sham.

Quem são? A Frente al-Nusra é ligada à Al-Qaeda. O Ahrar al-Sham é um grupo salafista. Por mais surpreendente que pareça, o Exército da Conquista anunciou que, no dia em que entrar em Damasco, restabelecerá a sharia - lei islâmica.

E então? Como dizia Lenin, que fazer?

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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