O labirinto político de Erdogan

No grande espetáculo de violência e mortes que se transformou o Oriente Médio, um novo tornado acaba de se formar e sopra sobre um país importante, a Turquia. Próxima da Síria e do Iraque, a Turquia abriga dois milhões de refugiados sírios. Um fardo enorme.

Gilles Lapouge, correspondente em Paris, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2015 | 12h37

A Turquia está próxima das áreas controladas pelos aterradores jihadistas do Estado Islâmico. Assim, depois de titubear por um longo tempo, Ancara lançou há algumas semanas ataques aéreos e bombas contra instalações do EI. Estranhamente, não muitas bombas. Ancara se contenta com o mínimo.

A razão disso é que, aos olhos do governo islâmico e conservador do presidente Recep Erdogan e do seu partido, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), o principal inimigo não é o EI, mas os curdos turcos independentistas do PKK. Entre Ancara e o PKK, o ódio é total. A guerrilha entre essas duas forças já provocara a morte de 40.000 pessoas quando, em 2012, uma trégua foi firmada entre os dois inimigos. A trégua foi rompida recentemente, em julho. E o incêndio recomeçou.

No início da semana passada, por duas vezes, redações locais do jornal curdo foram atacadas por manifestantes pró-turcos. A ação foi brutal, realizada por jovens vigorosos e barbudos, usando as vestes longas apreciadas pelos islamistas radicais.

Em se tratando de violência os curdos não ficam atrás. Domingo passado, ao sul do país, membros do PKK (provavelmente) armaram uma emboscada: 16 soldados turcos morreram. Na terça-feira, outro incidente: 14 policiais turcos abatidos.

Por que essa guerra entre Ancara e sua minoria curda reavivou? A razão é a ambição insaciável de Erdogan. Ele conseguiu se eleger presidente, mas não obteve maioria absoluta no Parlamento quando das eleições legislativas realizadas em junho.

Ora, Erdogan tinha necessidade dessa maioria absoluta para montar um governo capaz de eliminar qualquer oposição e iniciar trabalhos faraônicos na capital da Turquia.

Eis o método engenhoso engendrado por ele: em junho, os turcos votaram mal. Erdogan não conseguiu formar um governo. Assim, convocou novas eleições para novembro. Até lá, à guisa da campanha eleitoral ele lança os seus mercenários e também seus policiais e soldados à caça dos curdos separatistas do PKK.

Erdogan espera desse modo enfraquecer um outro partido curdo, menos violento que o PKK, e mais político, o HDP, que na última eleição criou surpresa ao conquistar um número suficiente de assentos para colocar o AKP numa situação instável.

Portanto, a questão é essa: a ofensiva lançada por Erdogan contra os separatistas curdos do PKK e os membros mais políticos do HDP irá melhorar o prestígio e o brasão do presidente a ponto de lhe dar a maioria absoluta que não conseguiu em junho passado?

No momento, pesquisas preveem que a campanha eleitoral intensa de Erdogan não mudará a situação. Ele obteria nas eleições de novembro o mesmo porcentual de 40% que conseguiu em junho.

Há incerteza, portanto, quanto a esse próximo escrutínio. Por outro lado, já existe uma certeza: será num país severamente ferido que a eleição vai se realizar. "A Turquia hoje parece um grande túnel de horror cujo fim não vemos", escreveu o escritor Musfafa Akyomi no jornal pró curdo Hürriyet.

Compreendemos melhor agora por que os ataques turcos contra o EI são tão raros, desordenados e frágeis? O fato é que todas as forças do país estão direcionadas contra o perigo curdo.

Para a coalizão ocidental em luta contra o Estado Islâmico, é uma grande perda, já que a Turquia é a maior potência militar da região. 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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