EFE/ Olivier Hoslet
EFE/ Olivier Hoslet

O poder da Irlanda

Ameaça de veto a acordo levou Theresa May e rever a questão da fronteira

Rick Noack, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2017 | 05h00

Durante uma semana, a Irlanda foi mais poderosa do que o Reino Unido. Na segunda-feira, a premiê britânica, Theresa May, voltou de Bruxelas sem o acordo do Brexit necessário para negociar as relações com a União Europeia. A dificuldade tem raízes na história da Irlanda e pode continuar dominando as negociações mesmo com o acordo alcançado ontem sobre a abertura das fronteiras irlandesas.

Um dos fundamentos da UE é a livre circulação de bens e serviços – que deixa de vigorar com o Brexit. Por isso, a Irlanda ameaçou vetar qualquer acordo que faça voltar a fronteira no norte da ilha. O Reino Unido não levou muito a sério a ameaça, que era uma questão crucial para a paz na região.

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A origem da divisão irlandesa remonta aos anos 20, quando uma revolta contra o domínio britânico ganhou força. Como resultado, a ilha foi dividida em duas partes: um país independente, no sul, a República da Irlanda, e a Irlanda do Norte, com menor autonomia, que continuou parte do Reino Unido.

A divisão levou a uma violenta rebelião entre separatistas, no norte, que rapidamente passaram a adotar as táticas terroristas do Exército Republicano Irlandês (IRA). Rapidamente, a luta tomou um rumo sectário. Os católicos são maioria da população total da ilha, mas são minoria na Irlanda do Norte. Os católicos norte-irlandeses, quase todos favoráveis a uma Irlanda unificada, sofrem repressão dos unionistas protestantes, hoje representados pelo Partido Unionista Democrático (DUP).

A violência chegou ao auge nos anos 60, o que resultou num grande deslocamento de tropas britânicas para a região. Um muro foi feito para separar católicos e protestantes numa parte de Belfast, na Irlanda do Norte, onde as tensões atingiram seu nível mais alto. 

Finalmente, o Acordo da Sexta-Feira Santa, de 1998, estabilizou o conflito. Desde então, a paz vem sendo mantida. O apoio a grupos militantes praticamente desapareceu e a maioria dos norte-irlandeses hoje aprecia os benefícios da cooperação com a Irlanda. O acordo, porém, inclui mais de cem referências a regras da UE e muitos temem que alterar o pacto reabra velhas feridas.

Hoje, a Irlanda e a Irlanda do Norte estão separadas por uma fronteira invisível, mas o Brexit ameaça ressuscitar os postos fronteiriços. Nesta sexta-feira, May prometeu que a Irlanda do Norte seguirá “totalmente alinhada” com os regulamentos alfandegários e comerciais da UE e manterá o comércio sem fronteira com a Irlanda. A decisão agradou a muitos na Irlanda do Norte, que votou contra o Brexit.

Mas, para May, ela trouxe desvantagens: a concessão pode despertar pretensões semelhantes em outras partes do Reino Unido e irritar o DUP, com o qual a premiê conta para sustentar sua coalizão de governo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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