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O que aprendi sendo 'trolado'

Thomas Jefferson com frequência dizia que uma população educada é um elemento fundamental para a sobrevivência da democracia. Hoje vivemos em uma era em que a educação se desenvolve especialmente por meio de novas plataformas. Redes Sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e outras, são os principais mecanismos pelos quais as pessoas recebem e compartilham fatos, ideias e opiniões. Mas o que ocorre quando essas novas tecnologias estimulam a desinformação, os rumores e a mentira?

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Fareed Zakaria,
The Washington Post

18 Janeiro 2016 | 03h00

Num amplo estudo do Facebook realizado recentemente, com a análise de postagens entre 2010 e 2014, um grupo de especialistas concluiu que as pessoas compartilham principalmente informações que confirmam seus preconceitos, e não dão atenção aos fatos e à veracidade da informação.

Como resultado, segundo os estudiosos, observamos uma “proliferação de relatos tendenciosos fomentados por rumores infundados, desconfiança e paranoia”. Os autores estudaram especificamente a chamada “trolagem”, termo usado para postagens abusivas e agressivas em que as pessoas inventam informações provocativas, com frequência falsas e procuram difundi-las amplamente. Os autores do estudo afirmam que “muitos mecanismos produzem falsas informações para serem aceitos, e por sua vez provocam falsas crenças que, quando aprovadas, resistem vigorosamente à retificação”.

Ocorre que nas últimas semanas fui alvo de uma campanha desse nível e vi exatamente como funciona. Teve início quando um obscuro website publicou a seguinte postagem: “Fareed Zakaria da CNN defende o estupro jihadista de mulheres brancas”. O artigo afirmava que em meu “blog privado” defendi que as mulheres americanas tinham de ser utilizadas como “escravas sexuais” para dizimar a raça branca. Mais à frente, a matéria afirmava que em minha conta no Twitter eu tinha postado a seguinte frase: “A cada morte de um branco derramo lágrimas de alegrias”.

Asqueroso, a ponto de essas informações sucumbirem diante da sua inconsistência, correto? Não, errado. Eis o que ocorreu em seguida: centenas de pessoas passaram a se conectar, tuitar e repassar as informações, acrescentando comentários, muito vulgares ou racistas para repetir neste artigo. Alguns websites de extrema direita reeditaram a história como verdadeira. O nível de histeria aumentou e as pessoas começaram a exigir minha demissão, deportação, ou morte. Durante alguns dias a intimidação digital chegou ao mundo real. Algumas pessoas ligaram para minha casa tarde da noite, despertaram e ameaçaram minhas filhas, que têm7 e 12 anos.

Bastaria um minuto para clicar no link e ver que a postagem original partira de um website de notícias falso, que se qualifica como satírico. Bastaria um pouco de bom senso para perceber o absurdo da acusação. Mas nada disto importava. As pessoas que propagaram as informações não estavam interessadas nos fatos, mas em nutrir o preconceito.

A matéria original foi astutamente escrita para oferecer aos especialistas em teorias de conspiração munição para ignorar as evidências. E o site afirmava que eu retirei a postagem depois de algumas horas ao perceber que ela “provocara uma reação negativa”. Então, quando o responsável pelas falsas informações declarou não existir prova da postagem em nenhum lugar, isto não fez nenhuma diferença. A prova de que as informações eram totalmente falsas levou muitas pessoas a se convencerem de que houve uma conspiração e a tentativa de encobri-la.

Segundo minha própria experiência, a conversa no Facebook é mais cívica porque as pessoas no geral têm de revelar sua verdadeira identidade. Mas no Twitter e em outros espaços as pessoas podem se manifestar anonimamente ou por meio de pseudônimos. É aí que a irritabilidade e o veneno fluem livremente.

Elizabeth Kolbert, escrevendo na The New Yorker, lembrou um experimento de dois psicólogos em 1970. Eles dividiram os alunos em dois grupos com base nas respostas que deram a um questionário: os muito preconceituosos e aqueles com menos preconceito. E solicitaram a cada grupo que discutisse alguns temas controvertidos. Posteriormente as perguntas foram formuladas novamente. “Os estudos revelaram um padrão surpreendente. Apenas conversando um com o outro, os alunos preconceituosos se tornaram ainda mais radicais e os tolerantes mais tolerantes, observou Kolbert. Esta “polarização de grupo” hoje se verifica a uma enorme velocidade e no mundo inteiro. É assim que ocorre a radicalização e o extremismo se propaga.

Adoro a mídia social. Mas de alguma maneira temos de criar mecanismos melhores para distinguir entre o que verdade e o que é mentira. Não importa o quão entusiastas são as pessoas, não importa o quão inteligentemente elas se comunicam em um blog ou num tuíte ou numa postagem abusiva, não importa o quão virais as coisas se tornam, mentiras são mentiras. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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