O que Netanyahu não disse

Premiê de Israel não apresentou argumento convincente sobre por que atrapalhar o acordo esboçado por Obama com o Irã

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

05 Março 2015 | 02h03

Agora que o primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, defendeu sua posição sobre o Irã perante o Congresso americano, com toda a atmosfera circense que isso envolveu, vamos tratar das questões sérias: qual é o interesse dos Estados Unidos em chegar a um acordo com o Irã? Pergunto isso porque os interesses americanos e os de Israel não estão totalmente alinhados. Qual é o mínimo de que os EUA precisam para satisfazer seus interesses? E como os EUA devem pesar as críticas à política americana do sério Bibi contra o cínico Bibi?

Os EUA e Israel concordam, e eu certamente também, que o Irã deve ser impedido de construir uma bomba nuclear, pois ela pode ser usada para ameaçar o Estado israelense - se for instalada em um míssil, Estados europeus e árabes também. Além disso, se o Irã obtiver a bomba, Arábia Saudita, Turquia e Egito certamente ficarão tentados a fazer o mesmo e, de repente, haveria um Oriente Médio - já repleto de guerras sectárias comandadas à distância - repleto de armas nucleares, com poucas das salvaguardas que tivemos durante a Guerra Fria entre Washington e Moscou.

Há atores no Oriente Médio para os quais a "destruição mútua garantida" é um convite para uma festa - e não um sistema de dissuasão. Além disso, se o Irã obtiver a bomba, há uma boa chance de o regime global de não proliferação nuclear, já fragilizado, se esgarçar, o que seria muito desestabilizador.

Nesse ponto, o presidente Barack Obama e Netanyahu compartilham as mesmas preocupações e, para ser justo, duvido que existiriam as sanções e negociações que temos hoje com o Irã se Bibi não houvesse ameaçado se fazer de "Dr. Fantástico" contra o Irã.

Bibi, no entanto, argumenta que qualquer acordo deve eliminar todas as centrífugas que possam enriquecer material para uma bomba. Não o censuro por esse desejo. A maioria de meus amigos israelenses o compartilha. Mas, como observou Robert Einhorn, ex-membro da equipe de negociação americana com o Irã num artigo no New York Times, essa posição "não é viável, nem necessária" para proteger a segurança dos EUA ou a de seus aliados no Oriente Médio.

Netanyahu nunca apresentou um argumento convincente sobre por que atrapalhar o acordo esboçado por Obama com o Irã resultaria em um acordo melhor, em mais sanções ou numa capitulação iraniana - e não numa situação em que Teerã continuaria a construir uma bomba e as duas únicas opções dos EUA seriam viver com isso ou bombardear o país, com toda a confusão que isso provocaria. Nesse sentido, o discurso de Bibi foi perfeito para o Congresso: prometeu um plano melhor que não custaria nada nem requereria qualquer sacrifício do povo americano. Ele poderia ser um congressista.

A posição americana - compartilhada por China, Rússia, Alemanha, Grã-Bretanha e França - é a seguinte: já que o Irã dominou as técnicas para fazer uma bomba e conseguiu importar todos os componentes para fazê-la, apesar das sanções, é impossível eliminar a capacidade de fazer a bomba de Teerã. O que é possível é pedir ao Irã que recue de seu enriquecimento de urânio e outras tecnologias de tal forma que, se algum dia o Irã decidir fazer uma bomba, precisaria de um ano - tempo mais do que suficiente para os EUA e aliados destruírem o país.

Acredito que um acordo como esse seria do interesse dos EUA se ele incluisse a concordância do Irã com inspeções constantes, intrusivas e de surpresa, limitações a todas suas capacidades de fabricar a bomba e, mesmo depois dos 10 anos de moratória propostos, fossem realizadas mais inspeções que o normal. Eu também gostaria que o Congresso acompanhasse o acordo concedendo autorização formal ao presidente - aqui e agora - para usar "quaisquer meios necessários" para responder se o Irã romper o acordo.

Essas condições satisfariam as preocupações estratégicas americanas enquanto abririam a possibilidade - nada mais - para o Irã se integrar melhor ao sistema global. Por fim, a única salvaguarda contra as ambições nucleares do Irã é uma mudança impulsionada internamente no caráter do regime iraniano.

Meu problema com Netanyahu é que ele advertiu que o acordo provisório que Obama negociou com o Irã - que congelou e fez retroceder partes do programa nuclear do Irã e criou as negociações atuais - acarretaria um colapso das sanções e seria violado pelos iranianos. Mas nada disso aconteceu.

De mais a mais, a mensagem de Bibi foi que não há nada mais importante do que dissuadir o Irã. Ok. Mas, se essa fosse minha maior prioridade, será que eu montaria um convite para falar ao Congresso mobilizando somente o Partido Republicano e o faria sem nem ao menos informar o presidente que está conduzindo as conversações com o Irã?

Será que o faria duas semanas antes de eleições israelenses, quando pareceria que estou usando o Congresso americano como um pano de fundo para uma propaganda eleitoral, suscitando dúvidas sobre se minha oposição ao Irã não passaria, em parte, de uma pose política?

E se eu necessitasse que os europeus estivessem do meu lado para sanções mais duras, será que eu não anunciaria que não construiria mais assentamentos na Cisjordânia em áreas que todos sabem que farão parte de qualquer Estado palestino negociado? Tal medida custaria um preço político a Bibi com sua base, mas certamente aumentaria o apoio da Europa a Israel.

Infelizmente, Bibi é Churchill quando se trata de isolar o Irã, mas um "desertor" quando se trata de arriscar o próprio futuro político para fazer isso acontecer. Tenho um problema com isso. Ainda não sei se apoiarei o acordo com o Irã, mas tenho um problema também com o Congresso americano vibrando em apoio a um líder estrangeiro deficiente tentando bombardear as negociações de meu governo antes de elas serem feitas. Isso me irrita. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA, ESCRITOR E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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