PASCAL PAVANI/AFP Photo
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O salvador da república

Com Macron, abre-se a possibilidade de a França recuperar o tempo perdido

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

Neste 7 de maio, data em que meu artigo é publicado, os franceses estarão votando no segundo turno das eleições presidenciais. Quero acreditar, como informam as pesquisas, que Emmanuel Macron derrotará Marine Le Pen e salvará a França da que, caso contrário, seria uma das piores catástrofes da sua história.

A vitória da Frente Nacional não só significaria a ascensão ao poder em um grande país europeu de um movimento de origem inequivocamente fascista, como também a saída da França da zona do euro, a morte a curto prazo da União Europeia, o ressurgimento dos nacionalismos destrutivos e, em última instância, a supremacia no Velho Continente da renascida Rússia imperial, sob o comando de Vladimir Putin, seu novo czar.

Apesar do que vinham informando as pesquisas, o triunfo de Macron, ou melhor, de tudo o que ele representa, é uma espécie de milagre na França de nossos dias. Porque, não nos enganemos, a corrente universalista e libertária de Voltaire, Tocqueville, de parte da Revolução Francesa, dos direitos humanos, de Raymond Aron, estava tremendamente debilitada pela ressurreição de uma outra: a corrente tradicionalista, reacionária e conservadora – da qual o governo de Vichy foi o autêntico representante e a Frente Nacional hoje é o emblema e porta-bandeira – que abomina a globalização, os mercados mundiais, a sociedade aberta e sem fronteiras, a grande revolução empresarial e tecnológica do nosso tempo. E deseja retornar à poderosa e perene França do grandeur, uma ilusão a que a contagiante vontade e sedutora retórica do general De Gaulle deram vida fugaz. 

A verdade é que a França não se modernizou e o Estado continua a ser um obstáculo avassalador ao progresso, com seu paralisante intervencionismo na vida econômica, sua burocracia obsoleta, os impostos escorchantes e o empobrecimento de alguns serviços sociais, em teoria extremamente generosos, mas, na prática, cada vez menos eficientes por falta de financiamento. A França recebeu um número enorme de imigrantes, provenientes em grande parte do seu desaparecido império colonial, mas não soube, nem quis, integrá-los. 

Hoje, esta imigração é a fonte do descontentamento e da violência nos bairros periféricos, onde os recrutadores do terrorismo islamista encontram tantos seguidores. E a imensa insatisfação da classe operária, em razão do fechamento das indústrias obsoletas que não são substituídas por novas, fez com que o antigo cinturão vermelho de Paris, domínio do Partido Comunista há apenas dez anos, seja agora cidadela da Frente Nacional.

Tudo isto Emmanuel Macron deseja mudar e tem afirmado com uma clareza quase suicida ao longo da sua campanha, sem ceder em nenhum momento em fazer concessões populistas. Isto porque ele sabe muito bem que, se as fizer, amanhã no poder não conseguirá implementar as reformas necessárias para tirar a França da sua inércia histórica e transformá-la num país moderno, uma democracia eficiente e, como a Alemanha, tornar seu país a outra força propulsora da União Europeia.

Macron está consciente de que a construção de uma Europa unida, democrática e liberal é indispensável não só para os velhos países do Ocidente, berço da liberdade e da cultura democrática, continuarem assumindo um papel primordial no mundo de amanhã, mas porque, caso contrário, estarão cada vez mais marginalizados e empobrecidos, num planeta em que Estados Unidos, China e Rússia brigam pela hegemonia mundial, relegando a Europa dos velhos parapeitos, descrita por Rimbaud, a uma condição terceiro-mundista. Que Deus, ou o diabo, nos livrem de um planeta em que todo o poder estaria nas mãos de Vladimir Putin, Xi Jinping e Donald Trump!

O europeísmo de Macron é uma das suas melhores credenciais. A União Europeia é o mais ambicioso e admirável projeto político da nossa época e beneficiou enormemente os 28 países que a integram. Todas as críticas que são feitas a Bruxelas são suscetíveis de soluções e adaptações às novas circunstâncias, mas mesmo assim, graças à União Europeia seus países membros pela primeira vez na sua história desfrutaram de uma coexistência pacífica por tempo tão longo. Além disto, todos estariam em situação econômica pior não fossem os benefícios propiciados pela integração. E não vai demorar muito para o Reino Unido descobrir isto, quando as consequências do insensato Brexit se fizerem sentir.

Futuro. Ser um liberal e deixar isto bem claro, como Macron deixou durante sua campanha, é ser um autêntico revolucionário na França atual. É devolver à empresa privada sua função de principal ferramenta de criação de empregos e motor do desenvolvimento, reconhecer no empresário, se sobrepondo às caricaturas ideológicas que o ridicularizam e vilipendiam, sua condição de pioneiro da modernidade, facilitar sua tarefa, atenuando o peso do Estado de modo a que se concentre no que realmente lhe diz respeito, ou seja, a administração da justiça, da segurança e da ordem pública, permitindo que a sociedade civil lute e atue na conquista do bem-estar e na solução dos desafios econômicos e sociais.

Esta tarefa já não está nas mãos de países isolados e encapsulados como querem os nacionalistas. No mundo globalizado dos nossos dias, a abertura e a colaboração são indispensáveis. E os países europeus compreenderam isto, com seu avanço para uma integração.

A França é um país riquíssimo que, graças às más políticas estatais, pelas quais dirigentes de esquerda e de direita foram responsáveis, empobreceu e foi se atrasando cada vez mais. Enquanto isto, Ásia e América do Norte, mais conscientes das oportunidades que a globalização oferecia para os países que abriam suas fronteiras e se integravam nos mercados mundiais, deixavam a França cada vez mais para trás.

Com Macron abre-se, pela primeira vez, em muito tempo, a possibilidade de a França recuperar o tempo perdido e iniciar as reformas – audazes e custosas, claro, que irão enxugar esse Estado obeso, que reprime e controla à exaustão sua vida produtiva, e mostrar a seus jovens mais brilhantes que o mundo da burocracia administrativa não é o mais propício para exercitar o seu talento e criatividade, e sim aquele em que a cada dia surgem novas oportunidades criadas pela fantástica revolução científica e tecnológica que vivemos hoje.

Ao longo de muitos séculos, a França foi um dos países que, graças à inteligência e à audácia de suas elites intelectuais e científicas, liderou os avanços no campo do pensamento e das artes, no das ciências e da tecnologia, e com isso a cultura da liberdade progrediu a passos de gigante. Essa liberdade foi fecunda não só no âmbito da filosofia, da literatura, das artes, mas também na política, com a Declaração dos Direitos Humanos, fronteira decisiva entre a civilização e a barbárie e um dos legados mais prolíficos da Revolução Francesa. 

Dormindo sobre sua láurea, vivendo na nostalgia do antigo esplendor, no estatismo e na complacência mercantilista, a França há tempos vem se acercando de um inquietante abismo ao qual o nacionalismo e o populismo estiveram a ponto de lançá-la. Com Macron, a recuperação pode começar, deixando apenas para a literatura o perigoso hábito de olhar com obstinação e nostalgia um passado irrecuperável. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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