REUTERS/Gonzalo Fuentes
REUTERS/Gonzalo Fuentes

O segundo mandato de Donald Trump

Reeleito em 2020 após se livrar do impeachment, presidente parece forte na economia, frágil na política e infeliz no emprego

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 05h00

Olhando para trás, é fácil identificar os indícios de que Donald Trump no fundo não desejava um segundo mandato. Durante a caótica campanha eleitoral de 2020, em que concorreram, de forma inédita, três candidatos com reais chances de vitória, o republicano por vezes parecia ser mero espectador, ofuscado pela disputa figadal entre Elizabeth Warren, a populista econômica indicada pelo Partido Democrata, e seu adversário, o bilionário Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e do movimento de centro OPenN! 

Trump chegou a botar apelidos nos dois. Warren era a “Pocahontas” (em alusão à acusação mentirosa de que a senadora teria afirmado ser descendente de índios para ser contratada como professora de Harvard). Zuckerberg, o “Dopey”, ou o “Kumbaya Boy” (referências sarcásticas ao apoio de Zuckerberg a políticas imigratórias progressistas e a sua proposta de transformar a política numa “plataforma aberta”, baseada em “civismo digital”). Trump passou a maior parte do tempo assistindo aos embates encarniçados entre seus adversários, em que se revelaram divergências profundas entre o centro e a esquerda na política americana.

Quando a campanha chegou ao fim, não parecia haver um único ponto de consenso entre Warren e Zuckerberg. As discordâncias entre os dois iam da globalização e das relações comerciais com a China a suas posições sobre as ações afirmativas com base em raça e a concessão de vistos para estrangeiros altamente qualificados. Para consternação de ambos, seus correligionários mais fervorosos se acusavam mutuamente de sexismo, antissemitismo e racismo. Houve até quem fosse acusado de querer jogar os hispânicos e negros contra a mulher de Zuckerberg, Priscilla Chan, que tem origem asiática.

As dúvidas sobre o estado de ânimo de Trump se aprofundaram no dia de sua segunda posse. Até os admiradores mais leais se surpreenderam com o líder macambúzio que, após ser reeleito com a menor porcentagem do voto popular em toda a história dos EUA, apareceu no Capitólio para fazer seu juramento. Não ajudou o discurso de posse – com direito a passagem improvisada sobre a nevasca que afugentou um público, o qual teria sido recorde, e obrigou os organizadores a transferir a cerimônia para o interior do Congresso. 

Quem assistiu ao evento pela TV não pôde deixar de notar como as relações de Trump com o vice-presidente Mike Pence estão deterioradas. Os dois ainda não superaram o estranhamento instaurado em meados do ano passado, quando Trump insinuou que cogitava escolher outro companheiro de chapa, a fim de melhorar seu desempenho nas pesquisas, suscitando rumores de que seu genro, Jared Kushner, estava sendo preparado para substituir Pence.

Segundo analistas, nos primeiros meses do segundo mandato de Trump já era evidente a ironia da posição em que o presidente se encontrava. A imagem do homem que pretendia chegar à Casa Branca como um outsider, carregado nos ombros de uma multidão enfurecida, comprometido em acabar com o “pântano de Washington” e promover guerras comerciais contra China e México, sofreu verdadeira reviravolta. 

A economia vem crescendo com vigor, mas não em razão de ousadas reformas internas. Os principais impulsos à atividade econômica vieram da redução de impostos, do aumento no endividamento público do país e do crescimento estável em lugares como China, México e Canadá. Trump faz um governo profissional, implacavelmente focado na desregulamentação e pouco transparente. O presidente delegou o grosso das decisões cotidianas a um pequeno grupo de assessores, formado por  ex-CEOs, investidores de Wall Street e ex-lobistas. São os “barões do roubo”, como diz Warren. Quando os institutos de pesquisa perguntam aos eleitores o que eles acham de Trump, a palavra “chato” aparece com frequência.

Os adversários de Trump imaginavam que a interferência dos russos na eleição de 2016 acabaria por tirá-lo da Casa Branca. Estavam equivocados. Com a falta de provas consideradas válidas pela Justiça e a relutância dos congressistas republicanos em destituir seu próprio presidente, as investigações não progrediram, e os democratas passaram a concentrar seus ataques nas promessas populistas do presidente.

Onde estava o muro que ele dizia que iria construir na fronteira com o México, com dinheiro dos próprios mexicanos? E os empregos na mineração de carvão que ele prometera devolver à empobrecida Appalachia (região que se estende do sul do Estado de Nova York ao Alabama)? E as fábricas que ele ia levar de volta para o Meio-Oeste? E o tal sistema de saúde que seria mais barato, mais generoso e mais abrangente que o Obamacare?

Trump não cumpriu nenhuma dessas promessas e, mesmo assim, continua instalado na Casa Branca. Em seus cada vez mais raros comícios, ainda fala em construir um muro, mas logo se põe a reclamar das elites “antiamericanas” que impedem a realização do projeto. A bem da verdade, a ideia não entusiasma muita gente. Os congressistas nunca pretenderam encontrar os recursos necessários a sua concretização. E ainda seria preciso superar o obstáculo dos processos judiciais movidos por proprietários de terras na região da fronteira, que se recusam a ceder suas terras para o projeto.

Um show sem fim. Para muitos dos cerca de 11 milhões de estrangeiros que vivem ilegalmente no país, a deportação agora é uma ameaça constante. Apesar disso, os xenófobos linhas-duras já não nutrem esperanças de ver Trump expulsar milhões de imigrantes do país. O número de deportados aumentou, mas o presidente hesita em adotar um plano que promova a remoção sistemática de todos os imigrantes ilegais, tendo deixado seus auxiliares atônitos numa reunião recente ao dizer: “Temos de ser muito duros, mas sempre com coração”.

Por sua vez, a “revolução energética”, com que Trump pretendia estimular a produção interna de carvão, petróleo e gás natural, continua na Justiça, tendo gerado mais empregos para advogados e lobistas do que para operários. O governo eliminou normas que controlavam a gestão dos resíduos de mineração, a poluição da água e os vazamentos de metano em poços de petróleo e gás. Mas não houve criação significativa de postos de trabalho no setor de energia. Nas minas de carvão mecanizadas da região das Montanhas Rochosas, a produção aumentou, mas continua em queda na Virgínia do Oeste, no Kentucky e no restante da Appalachia.

Trump tampouco foi capaz de cumprir sua palavra no tocante à revogação e substituição do Obamacare por algo que os americanos iriam considerar “fantástico”. Ao contrário do prometido, o remendo que o Congresso penou para aprovar – chamado de “Trumpcare” pelos democratas – não estabilizou o mercado dos planos de saúde. Para o presidente, a culpa é toda das empresas do setor e dos congressistas republicanos.

A cada mês que passa, fica mais evidente que os adversários de Trump conquistaram uma vitória de Pirro. Reduziram o presidente a uma frustração azeda e até mesmo à inércia. Vazamentos provenientes de uma Casa Branca com moral baixo dão conta de que o presidente passa horas e horas assistindo TV a cabo e se queixando a seus assessores mais próximos: “Eu não precisava desse emprego”. Os humoristas não se cansam de fazer pilhéria com o fato de Trump ter engordado no cargo, apesar do tempo que passa jogando golfe.

Resta a política externa, área igualmente marcada pelo imobilismo. Depois do cancelamento de uma visita de Estado ao Reino Unido, agendada para 2017, e dos protestos que atrapalharam uma cúpula no Canadá em 2018, Trump só recuperou o gosto pela diplomacia em 2019, numa viagem à China e às Filipinas, celebrizada tanto pela exibição de pompa e majestade, como pelo espetáculo de brutalidade policial. Trump incentivou os investidores chineses a financiar projetos de infraestrutura nos EUA, com resultados apenas modestos. Não há novas viagens ao exterior programadas. A imprensa estatal da Rússia agora deu para caçoar de Trump, atribuindo-lhe o epíteto de “velho rei ermitão”. Os líderes europeus já não demonstram muita disposição para se reunir pessoalmente com o republicano.

Este mês, o ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Stephen Bannon, saiu-se com um epitáfio extemporâneo para a era Trump. O maior erro que seu antigo chefe cometeu na vida, disse ele aos espectadores de seu talk-show, foi concorrer à reeleição. O nacionalismo econômico precisa de um novo paladino, continuou o apresentador, para então concluir: “O Trump até que tentou, mas o pântano acabou com ele”. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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