Sgt. Jason Robertson/U.S. Air Force/Reuters
Sgt. Jason Robertson/U.S. Air Force/Reuters

O terror, vítima de uma bala radioativa 

Ataque dos EUA ao Estado Islâmico com munição de urânio reacende debate sobre ética no campo de batalha 

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2017 | 05h00

Os EUA executaram ao menos dois ataques contra posições do Estado Islâmico usando munição PGU-14, feita com urânio exaurido – metal obtido a partir de combustível esgotado de reatores nucleares, com grande poder de destruição e muito tóxico. Os projeteis de 30 milímetros foram usados sobre dutos de concreto e caminhões-tanque reforçados com placas de aço, do sistema de escoamento de petróleo que o EI instalou no leste da Síria. 

Destruidora e eficiente, a munição desperta discussões éticas há cerca de 25 anos, depois de ter sido empregada na Guerra do Golfo, em 1991. O urânio pulverizado na explosão, embora de baixa radioatividade, deixa resíduos e pode ter provocado doenças em militares e civis.

Os bombardeios, confirmados pelo Pentágono, ocorreram em novembro de 2015, de acordo com o Washington Post. O Departamento de Defesa disse que os jatos A-10 Javali foram carregados com a PGU-14 apenas para essas missões “e não mais depois disso”. A possibilidade de contaminação foi considerada “pouco provável”. A maioria dos não combatentes havia deixado a região semanas antes, informou o Comando Central dos EUA (CentCom). 

Na véspera, foram lançados panfletos na área alertando para a iminência da ação. De quebra, destaca o CentCom, todos os alvos acabaram atingidos e destroçados. Foram empregados canhões, foguetes e bombas guiadas de meia tonelada.

As primeiras granadas de artilharia construídas com urânio exaurido surgiram nos anos 70, quando a Otan anunciou a existência de tanques soviéticos capazes de resistir ao impacto de qualquer munição antiblindagem conhecida – pesquisas apontaram que o tungstênio e o urânio empobrecido fariam isso. 

Nos EUA, havia cerca de 470 mil toneladas de urânio pobre, resultante do processamento do mineral natural e da exaustão de reatores de geração de energia. Por determinação do ex-presidente George W. Bush, o Pentágono restringiu a utilização. O tamanho dos estoques ainda existentes não é conhecido.

Entre 1991 e 1999, a munição foi usada no Iraque, na Bósnia, na Sérvia e em Gaza. Pouco depois, surgiram os primeiros casos de veteranos com alterações nos glóbulos brancos e danos neurológicos. Até agora, as pesquisas científicas, no entanto, não foram conclusivas. 

 

Mais conteúdo sobre:
Afeganistão Estados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.