Michael Reynolds/EFE
Michael Reynolds/EFE

O verdadeiro ponto fraco de Donald Trump

Por questão de segurança nacional, o presidente não pode se eximir de nenhuma decisão, mesmo quando seus interesses estejam envolvidos

Helio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 03h00

Nem imigração, nem protecionismo, nem bomba atômica, nem terrorismo. O maior risco ao poder de Donald Trump está em suas próprias empresas. É verdade que ele não precisa seguir as normas que regem conflitos de interesse no governo. O motivo é prosaico: por questão de segurança nacional, o presidente não pode se eximir de nenhuma decisão, mesmo quando seus interesses estejam envolvidos. Mas está sujeito ao artigo da Constituição que proíbe a detentores de cargos públicos receber “presente, emolumento, cargo, título de qualquer espécie de rei, príncipe ou Estado estrangeiro”. Três juristas abriram processo contra Trump, alegando que seus negócios violam o tal “artigo dos emolumentos”. Desde a eleição, empresas ou filhos de Trump já negociaram com governos como Índia (em Mumbai, há um hotel Trump em construção), Escócia (em Aberdeen, usinas eólicas afetam seu campo de golfe) ou China (o banco estatal chinês é o maior locatário da Trump Tower). “Cada vez que Trump colhe benefícios econômicos de um governo estrangeiro no aluguel de quartos de hotel ou instalações, ou do licenciamento de sua marca ou produtos de entretenimento, ele viola o artigo dos emolumentos”, afirmam. “Há a possibilidade crescente de impeachment por um abuso de poder que está a um passo do suborno e da traição.”

Quem vai pagar o muro mesmo?

Para financiar o muro na fronteira mexicana, a equipe de Trump quer mudar a lei do imposto de renda das empresas. Em troca de isenção ao que faturarem no exterior, elas não poderiam mais deduzir na contabilidade despesas com importados – um incentivo a comprar de empresas locais. Economistas criticam a medida como forma de subsídio. “O dólar subiria a ponto de anular qualquer vantagem competitiva e o efeito no comércio seria nulo”, escreveu o Nobel Paul Krugman. “Ah, e não ajuda a pagar o muro.”

Um pra lá, dois pra cá na regulação

Trump adotou outra ideia, importada (sem taxa) de Canadá, Austrália e Reino Unido: para cada regulação imposta pelo governo, pelo menos duas terão de ser extintas para compensar o custo. Como slogan, é bom. Na prática, nem tanto. De 11 mil normas baixadas todo ano, 60 têm impacto “economicamente significativo” e só 3 custam mais de US$ 1 bilhão, diz um estudo da Universidade George Washington. A maioria é anódina ou supre necessidades do próprio mercado, que não seriam atendidas.

A influência do outro Stephen na Casa Branca

Bem mais jovem que o xará Stephen Bannon, com quem escreveu o discurso da posse, Stephen Miller se tornou, aos 31 anos, uma das vozes mais ouvidas por Trump. Na universidade, era próximo do hoje líder racista da “alt-right” Richard Spencer. No Congresso, assessorou o senador Jeff Sessions, indicado para cargo de secretário de Justiça. Firmou-se como operador político e, no início da campanha de Trump, percebeu, na imigração, a questão ideal para derrotar Marco Rubio e, em Wall Street, o maior incômodo para Ted Cruz.

Zuckerberg despertou para a política?

O Facebook, utilizado por 66% dos americanos para ler notícias, foi essencial para a disseminação de mentiras na campanha eleitoral, sem que seu fundador e presidente, Mark Zuckerberg, julgasse ter qualquer responsabilidade nisso. Com a vitória de Trump, parece que a ficha caiu. Ele estabeleceu parceria com sites de checagem para rotular conteúdos falsos e, há poucos dias, voltou à edição humana nos tópicos mais lidos, dando prioridade a sites fidedignos. Quer se afastar do dia a dia na empresa – e nega preparar uma candidatura à presidência americana.

Por que James Joyce incomodou tanto

Como Flaubert e Baudelaire, no século 19, James Joyce teve de enfrentar a patrulha da obscenidade para publicar sua obra-prima. Proibido no Reino Unido, perseguido nos Estados Unidos, Ulysses só saiu na integra em Paris, em 1921. O joyceano Kevin Birmingham, da Universidade Harvard, defende uma tese original em The Most Dangerous Book: atrás do moralismo, o cerco a Joyce escondia um temor político, de revolucionários ao mesmo tempo “obscenos e anarquistas”.

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