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Internacional

Visão Global

O zelo despótico de Erdogan

Tomada de jornais soma-se a ações contra jornalistas sob pretexto de combate ao terror

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Sevgi Akarcesme,
The New York Times

10 Março 2016 | 07h10

O controle da maioria dos jornais e estações de TV da Turquia não é bastante para o presidente Recep Tayyip Erdogan. Na sexta-feira, com o zelo reformador do despótico líder, seu governo tomou meu jornal, o Today’s Zaman, e o Zaman, editado em turco, o diário de maior circulação do país. Juntos, estes títulos eram duas das poucas vozes independentes que restavam na Turquia – e o Today’s Zaman, particularmente, era uma fonte de notícias confiável em língua inglesa para diplomatas, acadêmicos e expatriados.

Um tribunal controlado pelo governo nomeou interventores para administrarem os jornais num verdadeiro ataque. À meia-noite, manifestantes enfrentaram gás lacrimogêneo e canhões de água quando a polícia antimotim invadiu nossa sede.

As autoridades usaram os instrumentos do poder para forçar os portões de ferro do edifício. No dia seguinte, nossa conexão de internet foi cortada para impedir que nossa redação preparasse uma edição especial sobre a intervenção. A partir daí, desconectaram os servidores dos jornais, destruindo nosso arquivo digital.

Horas depois da intervenção, disse ao policial que fumava fora do portão principal: “É proibido fumar nesta área”. Ele respondeu: “Não é mais”. A resposta enfatiza o alcance da mudança: uma perigosa trajetória que levará ao fim do Estado de Direito.

Já é muito ruim que mais de 20 jornalistas turcos estejam atrás das grades. A sexta-feira, porém, será lembrada como o dia em que a liberdade de imprensa foi restringida de maneira muito mais rigorosa, em violação da Constituição. Em novembro, dois conhecidos jornalistas turcos, Can Dundar e Erdem Gul, editores do jornal Cumhuriyet, foram presos sob a acusação de ajudarem uma organização terrorista armada e de publicarem material que põe em risco a segurança do Estado.

Eles foram soltos no mês passado, depois que o tribunal constitucional determinou que seus direitos tinham sido violados, mas ainda enfrentam um processo e, se condenados, a prisão perpétua. Erdogan disse que “não respeita” a decisão do tribunal que permitiu a libertação dos dois.

Esta pressão não é uma novidade. Em dezembro de 2014, as autoridades prenderam o editor-chefe do Zaman, na época, Ekrem Dumanli, como parte de uma repressão sistemática aos críticos do governo. Meu predecessor, o editor-chefe do Today’s Zaman, Bulent Kenes, foi preso em outubro por divulgar críticas pelo Twitter. Eu mesmo recebi uma sentença de prisão, suspensa no fim do ano, por alguém responder a um dos meus tuítes.

Por que nos tornamos o alvo do presidente? Segundo a liminar do tribunal, os jornais são acusados de disseminar “propaganda terrorista” e ajudar organizações terroristas. Esta se tornou a acusação conveniente usada a torto e a direito para reprimir os que criticam o governo.

No passado, o Zaman e o Today’s Zaman apoiaram as medidas pró-ocidentais e de tendência democrática do Partido Justiça e Desenvolvimento, liderado por Erdogan. Desde o início desta década, entretanto, Erdogan e seu partido tornaram-se cada vez mais autoritários. Um dos exemplos é a reação brutal da polícia aos protestos de 2013 no Parque Gezi, em Istambul, iniciados depois que árvores foram arrancadas do local para dar lugar à construção de um shopping. Os protestos atraíram a cobertura da imprensa mundial e provocaram as críticas dos mais firmes aliados da Turquia no Ocidente.

Em março de 2014, Erdogan, então primeiro-ministro (foi eleito presidente no final daquele ano), anunciou a natureza de seu novo governo – que pretende calar todas as formas de dissensão – quando exigiu que sites da mídia social como Facebook e YouTube fossem fechados. E ainda definiu o Twitter como “a pior ameaça à sociedade”.

A verdadeira repressão começou em 2013, depois de duas implacáveis investigações de corrupção que forçaram vários ministros a renunciar. Na tentativa de desviar a atenção de acusações de suborno, Erdogan acusou os críticos de fazerem parte de uma “estrutura paralela” organizada pelo pregador turco Fethullah Gulen e por seu movimento Hizmet. Seguiu-se uma caça às bruxas contra burocratas, empresas, jornalistas, professores, filantropos e cidadãos comuns por supostamente simpatizarem com Gulen, que vive no exílio voluntário na Pensilvânia desde 1999.

Seus sermões foram publicados no Zaman, mas Gulen não tem vínculos oficiais com o grupo proprietário dos jornais. A liminar que permitiu intervir no Zaman e no Today’s Zaman disse, sem apresentar evidência, que Gulen controlava os jornais. Muitos dos meus colegas no exterior inspiram-se nos seus ensinamentos pacíficos, moderados, mas é um insulto à sua inteligência e integridade sugerir que se deixem controlar por ele.

Talvez este seja o último artigo que escrevo como editor-chefe do Today’s Zaman, porque levantei objeções à censura da nova administração no dia em que eles transformaram o Zaman num órgão oficial com um artigo de capa favorável ao governo.

Como vimos na decisão do tribunal a respeito de Dundar e de Gul, emitida depois que o vice-presidente americano, Joseph Biden, expressou seu apoio aos jornalistas, a comunidade internacional ainda exerce alguma influência sobre a Turquia. Limitar-se a mostrar preocupação com a liberdade de imprensa e com as liberdades civis na Turquia, fechando os olhos diante de violações em nome de empresas e acordos regionais, pode ser lucrativo por enquanto, mas se o Ocidente não adotar uma ação firme para conter a guinada de Erdogan para o autoritarismo, correrá o risco de perder um aliado estável e uma rara democracia numa nação de maioria muçulmana. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Sevgi Akarcesme é editora-chefe do 'Today's Zaman'

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