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Obama, debate e democracia

Kim Jong-un, da Coreia do Norte, deu largada no ano que promete ser tão nebuloso quanto a notícia do teste que teria conduzido com bomba de hidrogênio; um ano de crise econômica global, com o tigre chinês no olho do ciclone, e disputas regionais mais acirradas, a exemplo de Arábia Saudita e Irã. Nenhuma destas crises é exatamente nova. 

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Adriana Carranca

09 Janeiro 2016 | 08h14

Uma nova saída para um velho problema é o que parece buscar o presidente Barack Obama diante do imbróglio sobre o controle de armas nos EUA, outro assunto antigo - tão antigo quanto a Segunda Emenda constitucional americana - que dominou as manchetes internacionais dessa semana. Escrevi coluna recente sobre o tema, não cabe retomá-lo. Mas há uma singularidade no debate atual, que talvez tenha passado despercebida, e ela reside no debate em si. 

Na noite de quinta-feira, durante mais de uma hora, Obama se submeteu a uma sabatina pública em que respondeu a perguntas não programadas de uma plateia sobre controle de armas. Entre eles, opositores à proposta como uma vítima de estupro, um executivo da indústria de armas e o xerife republicano Paul Babeau, do Arizona. Ao todo, cerca de cem pessoas estavam no auditório. 

É algo raro para um presidente. Obama costuma falar em eventos públicos e à imprensa, mas raramente exposto ao confronto direto com cidadãos. O que quer com isso? Obama está no fim do segundo mandato. Não terá tempo para confiscar as 350 milhões de armas em circulação nos EUA - como a oposição acusa, numa velha e clara tentativa de abafar qualquer diálogo. Ao aceitar o desafio, Obama forçou a sociedade americana a retomar o debate de um tema que é reavivado a cada novo massacre, quando somos inundados por um tsunami de opiniões inflamadas e partidárias, apenas para naufragar como começou: sem solução.

“Vamos pelo menos entender. Vamos tentar alguma coisa”, disse o presidente ao responder à primeira pergunta do público, feita por Taya Kyle, viúva de Chris Kyle, atirador de elite conhecido como o sniper americano que acabou morto por um veterano de guerra que sofria de estresse pós-traumático. Em poucos momentos o debate ecoou a polarização partidária cega que tão frequentemente obstrui os debates e reformas.

Obama chegou a admitir: “Eu tenho sido muito bom para os fabricantes de armas”, referindo-se a um recorde de vendas em sua gestão. Sua posição pelo controle é a mesma desde a campanha de 2008. Mas as tentativas de aprovar medidas nesse sentido no Congresso fracassaram. Na prática, o presidente fez pouco. Tão pouco quanto seus antecessores, coagidos pelo forte lobby das armas liderado pela Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) - que, aliás, recusou convite para o debate. No lugar disso, recorreu a uma declaração unilateral na FOX News, onde não seria contestada. À CNN, o porta-voz da entidade, Andrew Arulanandam, disse que a NRA “não vê razão para participar de um espetáculo de relações públicas orquestrado pela Casa Branca.” 

Ele está enganado. O debate público só é um “espetáculo” para os que desdenham da democracia. 

Na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro é sabatinado semanalmente. Durante meia hora, responde à oposição sobre cada passo dado na semana. As sessões ocorrem desde 1881, conduzidas com dramaticidade shakespeariana - mas longe do confronto burro e raivoso, que recorre a xingamentos e agressões, tão comuns hoje, do Leblon a Brasília. “O que o mundo precisa, e uma das coisas que este país (EUA) mais precisa, é uma forma melhor de conduzir debates políticos. Precisamos redescobrir a arte perdida da argumentação democrática”, defende o professor de Harvard Michael Sandel. É do confronto civilizado de ideias que se faz democracia, o resto é propaganda fascista ao melhor estilo Kim Jong-un.

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