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Obama anuncia que viajará a Havana em março

Visita será a primeira de um presidente americano no exercício do mandato desde 1928; ato consolidará retomada de relações diplomáticas

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Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON,
O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2016 | 20h18

No mais simbólico gesto de sua política de reaproximação com Cuba, Barack Obama anunciou nesta quinta-feira que fará uma visita oficial a Havana em março, na primeira vez em que um presidente americano pisará em Cuba durante o exercício do mandato desde 1928. A chancelaria cubana também se pronunciou e afirmou que os preparativos para receber o líder dos EUA já estão em andamento.

“A viagem deve acelerar o processo de fortalecimento dos laços bilaterais”, avaliou Peter Kornbluh, autor de livro sobre as negociações secretas entre os países desde a chegada de Fidel Castro ao poder, em 1959.

A ideia de um dirigente dos EUA viajar a Cuba era impensável até dezembro de 2014, quando os dois lados decidiram encerrar um rompimento de 54 anos e restabelecer relações diplomáticas. “O presidente pretende usar sua viagem para tornar irreversíveis as suas políticas em relação a Cuba. Se deixasse para ir no fim do seu mandato, não haveria tempo para consolidar seu engajamento com Havana”, disse Kornbluh ao Estado.

O anúncio da visita também colocou Cuba na campanha eleitoral para a presidência dos EUA, na qual o restabelecimento de relações diplomáticas com a ilha é criticado pela maioria dos pré-candidatos republicanos. Filhos de imigrantes cubanos, Marco Rubio e Ted Cruz prometem reverter as medidas anunciadas por Obama em relação à ilha nos últimos 14 meses.

Kornbluh espera que a ida do presidente a Havana aumente a pressão de empresários americanos sobre o Congresso, de maioria republicana, para a revogação do embargo econômico imposto no início dos anos 60. Dentro de Cuba, ele acredita que haverá mudanças na legislação para facilitar investimentos estrangeiros no país.

Acompanhado da primeira-dama, Michele Obama, o presidente estará em Havana nos dias 21 e 22 de março, menos de um mês antes do Congresso do Partido Comunista de Cuba, no qual a política de reaproximação com Washington estará no centro das discussões.

A Casa Branca disse que a visita terá o objetivo de fortalecer os laços comerciais e os contatos entre as populações, além de reafirmar o apoio dos EUA aos direitos humanos. Obama se encontrará com o presidente cubano, Raúl Castro, e integrantes da “sociedade civil”, expressão normalmente utilizada para definir dissidentes políticos da ilha. Segundo o governo americano, a visita histórica será mais uma demonstração do compromisso de Obama de trilhar um novo caminho nas relações com Cuba, por meio da “expansão de viagens, comércio e acesso à informação”.

Mais medidas. Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano, disse que ficará surpreso se a viagem não for acompanhada de anúncios na direção de maior abertura na ilha, especialmente na área econômica e de acesso à internet.

“Os cubanos adoram Obama e sua visita terá tanta ou mais atenção do que a realizada pelo papa Francisco em setembro”, opinou Hakim. “Isso terá um enorme impacto sobre os cubanos e vai energizar a população de uma maneira que não conseguimos prever.”

Na avaliação de Hakim, a viagem de Obama terá um “tremendo” significado histórico. “Há menos de um ano, Cuba estava na lista de países que os EUA consideram patrocinadores de terrorismo”, lembrou.

“O impacto da visita dependerá em grande parte de seu formato”, afirmou Eric Farnsworth, do Conselho das Américas. Para ele, será importante ver se Obama terá oportunidade de falar diretamente aos cubanos por meio da televisão, por exemplo.

Um dos negociadores da reaproximação com Cuba dentro do governo dos EUA, Ben Rhodes disse nesta quinta-feira que o progresso registrado até agora é “insuficiente” e essa é a razão da viagem de Obama à ilha. “Há muito mais que pode ser feito – pelos Estados Unidos e pelo governo cubano – para avançar nessa abertura de maneira positiva para os cubanos e para os Eamericanos”, escreveu Rhodes, que integra o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca.

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