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Obama ataca desigualdade e prevê em discurso anual 'governar com caneta'

Cláudia Trevisan, correspondente em Washington

29 Janeiro 2014 | 01h 31

Presidente usa pronunciamento sobre ações do governo para avançar agenda social e anuncia aumento de salários

WASHINGTON - Com um dos mais baixos índices de aprovação de seu governo e diante de eleições legislativas cruciais em novembro, o presidente dos EUA, Barack Obama, pediu nesta quarta-feira, 29, ao Congresso que eleve o salário mínimo, atue para fortalecer a classe média e ampliar as oportunidades de ascensão social e transforme 2014 em um "ano de ação".

Em seu discurso anual sobre o Estado da União, o presidente prometeu que será mais agressivo na utilização de seus poderes executivos, caso o Congresso continue a obstruir o andamento de suas propostas. "A América não vai ficar parada - e eu também não vou", disse. Nos últimos 12 meses, Obama viu quase todas as suas iniciativas legislativas naufragarem em razão da oposição republicana na Câmara, o que transformou 2013 no mais improdutivo ano da história do Congresso.

"Hoje, depois de quatro anos de crescimento econômico, os lucros empresariais e os preços das ações raramente estiveram mais altos e aqueles no topo nunca estiveram tão bem. Mas a média dos salários mal se moveu. A desigualdade se aprofundou. A mobilidade social se estancou. O frio e duro fato é que mesmo no meio da recuperação, muitos americanos estão trabalhando mais para apenas sobreviver (...). E muitos ainda não estão nem trabalhando."

Segundo o presidente, esse cenário atinge o fundamento do sonho americano, que prega oportunidade para todos - "a noção de que se você trabalhar duro e assumir responsabilidades, prospera". Obama ressaltou que a erosão dessa premissa antecede a crise global de 2008. "Por mais de três décadas, mesmo antes de a grande recessão nos atingir, mudanças em massa na tecnologia e na competição global eliminaram muitos trabalhos bons, de classe média, e enfraqueceram os fundamentos econômicos dos quais nossas famílias dependem."

A ideia de oportunidade está no centro da identidade americana, declarou Obama. "E o projeto que define nossa geração é restaurar essa premissa." Para isso, o presidente propôs a ampliação do acesso à educação pré-escolar e apoio ao pagamento do estudo superior. Também defendeu que mulheres ganhem salários equivalentes aos dos homens e tenham condições de ter filhos sem sacrificar suas carreiras. "É o momento de acabar com políticas de emprego que pertencem a um episódio de Mad Men", afirmou, em referência ao seriado de TV que se passa nos anos 60.

Na sessão conjunta da Câmara e do Senado na noite de quarta, Obama anunciou que usará seu poder executivo para elevar o salário mínimo pago aos empregados de empresas que prestam serviços ao governo federal - o valor passará de US$ 7,25 para US$ 10,10 por hora para os que forem contratados a partir de agora.

O democrata elencou outras áreas nas quais atuará sem esperar o aval dos parlamentares, entre as quais está a criação de programas de treinamento, a aceleração do processo de aprovação de projetos de infraestrutura, a adoção de novas metas de eficiência energética e o estabelecimento de um novo sistema de poupança para aposentadoria.

Mas em uma demonstração de seus limites, Obama repetiu itens da agenda que apresentou ao Congresso há um ano, a maior parte não cumprida. O presidente voltou a pedir uma reforma de imigração que dê a oportunidade de obtenção da cidadania americana às 11 milhões de pessoas que vivem ilegalmente no país.

O fechamento da prisão de Guantánamo também retornou ao discurso. Segundo Obama, a medida é mais necessária com a perspectiva de encerramento da guerra do Afeganistão este ano. "Nós combatemos o terrorismo não apenas por meio de inteligência e ação militar, mas nos mantendo fiéis aos nossos ideais constitucionais e dando um exemplo para o restante do mundo."

Nas prioridades de política externa, Obama dedicou a maior parte do discurso ao Oriente Médio, em especial às negociações que têm o objetivo de impedir que o Irã construa armas nucleares. A América Latina recebeu uma menção indireta sob o chapéu "Américas", que ganhou o mesmo espaço dedicado à Ucrânia: três linhas sobre comércio e intercâmbio cultural e educacional.

O principal alvo de Obama no discurso foi a população americana, cuja maioria desaprova sua atuação, depois de um ano que foi o pior desde sua chegada ao poder. O impacto da oposição republicana chegou ao ápice em outubro, com o fechamento do governo por 16 dias. E o governo foi responsável pelo desastroso lançamento da reforma do sistema da saúde que até agora é seu principal feito.

A polarização política e a dificuldade de avanço da agenda legislativa contaminaram a percepção dos americanos sobre o estado dos EUA. Pesquisa divulgada nesta quarta pelo Wall Street Journal mostrou que 37% dos entrevistados veem o país "dividido", adjetivo que foi seguido por "problemático" (23%). Outros 21% acreditam que os EUA estão se "deteriorando".

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