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REUTERS/Carlos Barria

Nos 40 anos do golpe na Argentina, Obama homenageia vítimas e faz mea culpa

Presidente dos EUA jogou flores no Rio da Prata ao lado de Mauricio Macri e disse que seu país demorou a defender direitos humanos na Argentina

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Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires,
O Estado de S. Paulo

24 Março 2016 | 12h58

BUENOS AIRES - O presidente dos EUA, Barack Obama, homenageou as vítimas da última ditadura militar argentina (1976-1983) na manhã desta quinta-feira, 24, dia em que o golpe completou 40 anos. Num mea culpa em que mediu palavras, disse que seu país “demorou a defender os direitos humanos na Argentina”. Ele não viu as marchas antiamericanas e de tom kirchnerista organizadas na Praça de Maio à tarde, quando já estava em Bariloche.

A homenagem da qual o líder americano participou foi organizada no Parque da Memória, onde um monumento próximo ao Rio da Prata tem 10,7 mil nomes e os rostos das 30 mil vítimas da ditadura. Obama as chamou de heróis.

O americano jogou flores no rio ao lado de Mauricio Macri, presidente argentino, e durante uma declaração conjunta disse “nunca mais”, slogan de grupos de direitos humanos repetido em manifestações. “As democracias devem ter o valor de reconhecer quando não se comportam à altura. Demoramos para defender os direitos humanos no caso da Argentina”, afirmou Obama. Ele não mencionou diretamente o treinamento e o financiamento americano a militares argentinos. “Sei que há polêmicas sobre as políticas dos EUA naqueles dias sombrios. É algo em que meu país trabalha.”

Milhares de capturados foram jogados vivos de aviões no rio ao lado do qual Obama e Macri se deixaram fotografar. O americano anunciou em sua visita a abertura de arquivos militares e de inteligência sobre o período. A decisão dá margem ao argentino para lidar com grupos de defesa dos direitos humanos, ligados ao kirchnerismo. “Enfrentar os delitos cometidos por nossos líderes pode ser fonte de divisão, mas é fundamental para construir paz e prosperidade”, concluiu Obama.

Obama não enfrentou protestos nos 6 km entre a casa do embaixador, no bairro de Palermo, onde ficou hospedado desde sua chegada na madrugada de quarta-feira a Buenos Aires. O público que aproveitou o feriado para caminhar ou pedalar acenou amistosamente.

A divisão mencionada ficou evidente no feriado de sol em Buenos Aires. Centenas de argentinos dedicaram a manhã para acenar para a comitiva de Obama até que ele deixou Buenos Aires, com destino a Bariloche, onde passeou de barco com a família. Ele deu forte apoio a Macri ao elogiar sua política externa e econômica e alçá-lo a exemplo de líder para a região e o mundo.

Argentinos que não veem tais virtudes em Macri encheram a Praça de Maio, cujos postes já não tinham as bandeiras americanas que no dia anterior receberam Obama, em sua visita à Casa Rosada.

A líder da organização Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, que recusou o convite para acompanhar a homenagem com Obama, atacou diretamente Macri. Em um discurso diversas vezes interrompido por gritos de exaltação ao kirchnerismo, considerou demissões de servidores e repressão a manifestações “novas formas de violação dos direitos humanos”. “Obama disse que abrirá arquivos secretos. É obrigação dos governos que foram partícipes no golpe fazer isso”, afirmou, em um dos momentos de vaia mais intensa ao americano.

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