EFE/EPA/STUART PALLEY
EFE/EPA/STUART PALLEY

OEA tenta esclarecer caso de mexicanos desaparecidos

Equipe de especialistas internacionais rejeita tese oficial de massacre e pretende entrevistar militares envolvidos

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

23 Março 2015 | 02h02

Especialistas internacionais designados pela Organização dos Estados Americanos (OEA) tentam descobrir novas pistas para elucidar o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, ocorrido em setembro, no México. Eles não assumem a tese oficial de que houve um massacre e os jovens foram mortos.

O grupo de cinco especialistas escolhidos pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) - organização ligada à OEA que pesquisa o caso desde o dia 1.º - informou que deseja entrevistar militares do 27.º Batalhão, de Iguala, para esclarecer a possível participação de autoridades no crime, fato que parentes de jovens dizem ter indícios de ter ocorrido.

"O México vive uma crise humanitária. Precisamos de ajuda internacional. Acredito que a investigação será fundamental para procurar novas linhas de investigação. A versão da Procuradoria-Geral é absolutamente inverossímil", afirmou ao Estado o advogado Netzaí Sandoval, professor da Universidade Iberoamericana e autor de uma petição para a investigação de crimes contra a humanidade no país.

"Parece que por estar de férias ou folga, algumas pessoas do batalhão não deram declarações", disse a advogada colombiana Ángela Buitrago à agência AFP quando o grupo divulgou a informação de que pediria a realização das entrevistas.

Os especialistas permanecerão no México durante três semanas por mês nos seis primeiros meses do mandato da equipe, acertado em novembro de 2014 entre o governo mexicano, a CIDH e os parentes dos jovens - que também não acreditam na versão oficial.

Para Sandoval, a tese de que os 43 estudantes foram mortos em um massacre não pode ser dada como certa enquanto não houver "provas contundentes e científicas" que a confirmem. "Não houve buscas nos quartéis militares, nem nos crematórios militares. O governo diz que não foram realizadas buscas nesses locais porque 'sabe' que eles não estão ali. Isso é inaceitável, deve haver buscas em todos os lugares."

O advogado ressalta que o caso dos 43 jovens é mais um em um país onde "até a Justiça é vítima de desaparecimento forçado". "Ayotzinapa é um caso paradigmático dentro de um contexto de desaparecimentos forçados, tortura e execuções extrajudiciais generalizadas e sistemáticas", acrescenta.

Entre 2006 e 2012, segundo relatório apresentado pela ONU, o México registrou 2.352 casos de desaparecimento forçado, nos quais é grande a chance de participação de servidores públicos. Além disso, houve 7.253 casos de tortura realizada por forças mexicanas.

Na quinta-feira, a equipe de especialistas pediu que o governo de Enrique Peña Nieto deixe de tratar o caso como massacre e passe a adotar o termo "desaparecimento forçado".

"A crise humanitária que vive o México é devastadora. As pessoas choram nas marchas. Às vezes acho que até que haja autoimolações - como no início da Primavera Árabe - esse país não vai mudar", diz Sandoval.

O grupo de especialistas internacionais deverá escrever relatórios sobre o caso em maio e em agosto. Para isso, deve se reunir com autoridades, sobreviventes e parentes dos jovens.

As famílias das vítimas dizem que a versão oficial de massacre "cai" após um grupo de médicos forenses da Argentina ter mostrado falhas e irregularidades na forma como o México conduziu a investigação.

Auxílio. Sandoval tem contato com parentes de alguns dos 43 estudantes e afirma que eles não recebem auxílio governamental. "Essas famílias não estão protegidas pelo governo. Se organizam de maneira independente". Esse ponto será outra atribuição da equipe de especialistas. Ao fim do trabalho, os cinco deverão redigir um plano de atenção integral às vítimas do caso.

Os pais de alguns dos estudantes desaparecidos iniciaram semana passada uma viagem pelos EUA para mostrar o caso e pedir auxílio para organizações internacionais, como a Anistia Internacional e a ONU. A "Caravana 43", como foi nomeada a marcha dos mexicanos nos EUA, carrega cartazes com os dizeres: "Vivos os levaram, vivos os queremos". Ela foi dividida em três trajetos: pelo oeste, centro e leste do país.

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