George Ourfalian/Reuters
George Ourfalian/Reuters

Com apoio russo, ditador sírio toma reduto rebelde

ONU denuncia violação de direitos e execuções de civis em Alepo; avanço de tropas do regime é maior triunfo militar desde 2011

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2016 | 13h57
Atualizado 13 Dezembro 2016 | 19h58

Após anos de resistência e confrontos, os rebeldes começaram a deixar a cidade de Alepo na noite desta terça-feira e ir para áreas controladas pela oposição. A notícia da retirada dos rebeldes de Alepo, reconquistada pelas tropas de Bashar Assad, foi dada horas após a ONU expressar profunda preocupação com relatos de que soldados sírios e milicianos iraquianos teriam executado 82 pessoas em bairros recapturados.

Em uma reunião com diplomatas, a ONU disse ter informações de que soldados aliados de Damasco têm entrado nas casas dos que ainda estão na cidade e executado famílias inteiras. Segundo a Unicef, médicos alertaram sobre cem crianças presas em um prédio em chamas por causa de ataques aéreos. Havia ainda 500 pacientes gravemente feridos que estavam à beira da morte, sem poder ser atendidos ou retirados. 

Nos bastidores, representantes da ONU acusavam russos e sírios de terem prolongado de forma “criminosa” o sofrimento de civis. Apenas na madrugada desta terça-feira, 82 pessoas, 13 delas crianças, foram sumariamente assassinadas. A ONU diz que esse número seria uma fração dos crimes cometidos nas últimas horas. “Estimamos que as mortes ultrapassem a marca de centenas”, alertou a entidade. Diplomatas que estavam no encontro relataram ao Estado que um dos observadores da ONU descreveu Alepo como “o local onde o sentido de humanidade derreteu”.

Em uma entrevista coletiva em Genebra, o porta-voz de Direitos Humanos da ONU, Rupert Colville, indicou que a ONU “tem recebido informes de pessoas sendo mortas em plena rua ao tentar fugir e de homens armados que entram em casas e simplesmente executam a todos”. Segundo Colville, Alepo é hoje uma “terra arrasada”, com prédios destruídos e o colapso completo dos serviços de água e eletricidade. “Trata-se de um pequeno inferno.” 

Segundo a organização Capacetes Brancos, cerca de 100 mil vítimas estavam “empilhadas” numa das áreas da cidade, aguardando serem resgatadas. Segundo a entidade, ainda havia sobreviventes embaixo dos escombros dos prédios bombardeados. “Não há quem os resgate. Vão morrer ali e suas casas serão seus túmulos”, indicou a Capacetes Brancos. 

As execuções ocorriam enquanto poucos moradores com celulares mandavam as últimas mensagens se despedindo de amigos. Segundo o governo sírio, “as atrocidades estavam sendo cometidas por terroristas”. Na TV oficial síria, as imagens eram de moradores sendo retirados e parte da população celebrando o fim do confronto. 

Para o alto-comissário de Direitos Humanos, Zeid al-Hussein, a destruição de Alepo não significa o fim do conflito. “A execução de civis está ocorrendo e nem estamos perto do fim dessa guerra cruel”. A tomada de Alepo é o maior triunfo militar do governo desde 2011.

 

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