AP Photo/Hassan Ammar
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ONU denuncia irregularidades em medidas de Trump

Segundo a entidade, a discriminação com base unicamente na nacionalidade está proibida e até 20 mil refugiados poderiam ser afetados pelo bloqueio adotado pelo novo governo americano

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2017 | 21h36

Pressionada a reagir diante das políticas adotadas por Donald Trump, a ONU abandonou seu silêncio, denunciou a ilegalidade das medidas adotadas pelos EUA e alertou que até 20 mil refugiados poderiam ser afetados pelas barreiras adotadas pela Casa Branca.

Por dias, as diferentes agências das Nações Unidas evitaram criticar Trump. Mas passaram a ser pressionadas por outros governos que, inconformados com as medidas, exigiram que a entidade assumisse a defesa dos tratados internacionais. 

Assim, em uma declaração de poucas linhas divulgada nas redes sociais, o alto-comissário para Direitos Humanos da ONU, Zeid al-Hussein, classificou o veto a imigrantes de sete países como “mesquinho” e insistiu em seu caráter irregular. “A discriminação com base unicamente na nacionalidade está proibida”, disse. “O veto desperdiça recursos necessários para a luta anti-terrorismo”, afirmou Al-Hussein que, durante a campanha eleitoral, chegou a dizer que Trump seria um “perigo” ao mundo.  

A ONU ainda decidiu reagir contra as afirmações de Trump de que a “tortura funciona” e, por ele, essa prática voltaria a ser adotada. Em resposta, o relator especial da ONU sobre Tortura, Nils Melzer, criticou a posição do americano, alertou que a tortura não funciona e ainda o lembrou que a prática viola as obrigações legais assumidas pelos EUA. Para ele, esses métodos estão “associados ao barbarismo, e não com a civilização”.  

Em sua avaliação, a adoção das práticas por Trump levaria outros países a adotar o mesmo comportamento, “com consequências catastróficas”. 

Ontem, o alto-comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, afirmou ainda esar “profundamente preocupado com a incerteza enfrentada por milhares de refugiados em todo o mundo que estão em processo de reassentamento para os Estados Unidos”.

Segundo ele, apenas nos últimos dias, mais de 800 refugiados foram escolhidos para irem aos EUA. Mas acabaram sendo vetados. “O Acnur estima que 20 mil refugiados em condições precárias poderiam ser reassentados nos Estados Unidos durante os 120 dias cobertos pela suspensão”, disse. “Os refugiados estão ansiosos, confusos e com o coração partido por esta suspensão, que já é em si um longo processo”, declarou.

A ONU ainda insiste que os refugiados têm “as mesmas preocupações sobre proteção e segurança que os americanos" e desmente a tese americana de que os EUA estariam sendo “invadidos por estrangeiros”. 

“A grande maioria dos refugiados do mundo está hospedada em países em desenvolvimento, e menos de 1% será reassentado globalmente. Aqueles aceitos para o reassentamento pelos EUA, após um rigoroso processo de triagem de segurança deste país, estão chegando para reconstruir suas vidas com segurança e dignidade”, alertou.

O Acnur ainda insiste que refugiados “devem receber tratamento igual de proteção e assistência, assim como para oportunidades de reassentamento, independentemente da sua religião, nacionalidade ou raça”.

 

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