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REUTERS/Goran Tomasevic

ONU propõe divisão do território sírio em federação de 3 Estados

Após cinco anos de guerra, pelo menos 2 milhões de pessoas vivem sob o regime do Estado Islâmico

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Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA,
O Estado de S. Paulo

15 Março 2016 | 07h00

Cinco anos após seu início, a guerra na Síria mudou o mapa da região. Documentos da ONU obtidos pelo Estado revelam que 2 milhões de pessoas vivem hoje sob o controle do Estado Islâmico (EI) e a coesão social do país – mantida por décadas graças a um regime autoritário – é radicalmente diferente da que existia em 2011. 

Uma solução para o conflito, segundo fontes diplomáticas, seria a divisão da Síria em três Estados, unidos em uma federação. O modelo usado é o do acordo de paz da Bósnia, de 1995, e que estabeleceu regiões semiautônomas dentro de um país que era um mosaico de etnias.

Para se preparar para o processo de diálogo, a ONU elaborou uma série de relatórios e estudos sobre a situação “no campo” para tentar convencer as partes de que precisam negociar uma saída. Um dos argumentos, portanto, é o de que tanto oposição quanto governo estão ameaçados de “desaparecer” em diferentes partes do território diante da força do EI.

Hoje, 2 milhões de sírios já vivem em cidades onde o controle é exclusivamente do EI, que não passava de uma milícia menor em 2011, quando a guerra começou. Segundo analistas na ONU, foi a falta de um consenso internacional sobre o que fazer com o presidente Bashar Assad que abriu espaço para o grupo jihadista ganhar terreno.

Apesar dos esforços humanitários das agências internacionais, mais de 500 mil sírios vivem hoje em áreas sitiadas. Juntas, porém, forças do governo e da oposição poderiam abafar o crescimento do EI. “A questão é quem ficará encarregado de cada área se, de fato, os jihadistas forem derrotados”, indicou um mediador ao Estado.

Sobre a mesa de negociação, portanto, a ONU e as principais potências apresentam uma proposta que, segundo diplomatas, seria a única solução para pôr fim à guerra: transformar a Síria numa federação. 

O modelo bósnio de 1995 garantiria o apelo da comunidade internacional e do próprio Assada pela integridade territorial do país, enquanto daria às diferentes etnias mais controle sobre a gestão de suas regiões.

No norte e no nordeste, uma região curda seria estabelecida. No centro e no leste, uma região autônoma e de maioria sunita. Na costa e na área entre Alepo e Damasco, a região seria base de uma população xiita, alauitas e dos cristãos que restaram no país. 

O maior obstáculo, porém, seria a região curda da Síria. O projeto enterraria o sonho de um Curdistão – e seria encarado pelos vizinhos turcos como uma ameaça constante para Ancara. 

Crianças. Na avaliação dos mediadores, poucas outras soluções poderiam dar uma resposta à destruição da Síria. “Pelo menos 3,7 milhões de crianças só viram a guerra em suas vidas; 7 milhões vivem em pobreza e 900 menores foram mortos em 2015 – 150 deles em suas escolas, em meio às aulas”, disse Staffan de Mistura, mediador da ONU. E, diante das mortes de soldados, cada vez mais crianças são recrutadas para lutar. Segundo o Unicef, os menores ganham salários de até US$ 400 por mês e presentes das partes beligerantes para os convencer a entrar na guerra. 

A entidade aponta que mais da metade das crianças recrutadas tem menos de 15 anos e 50% dos menores na Síria já não estudam. Além disso, 25% das escolas foram destruídas e milhares de garotas estão sendo obrigadas a se casar antes mesmo dos 13 anos diante da pobreza. 

Desde 2011, quando a guerra começou, 306 mil crianças sírias nasceram em campos de refugiados pelo mundo. Pelo menos 10 mil menores morreram na Síria, vítimas de bombas.

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