REUTERS/Marco Bello
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Oposição e chavismo medem forças nas ruas em momento de tensão na Venezuela

Grupos contrários ao presidente Nicolás Maduro participam da 'mãe de todas as marchas' e caminham em direção ao centro de Caracas, onde governistas se manifestam em defesa do presidente; agência diz que uma pessoa foi baleada

O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 09h40
Atualizado 19 Abril 2017 | 13h19

CARACAS - A oposição venezuelana começou na manhã desta quarta-feira, 19, o protesto batizado de "a mãe de todas as marchas", no qual acusa o presidente Nicolás Maduro de adotar medidas ditatoriais para reprimir a indignação popular em razão da grave da crise econômica atravessada pelo país.

De acordo com informações da agência Reuters, duas testemunhas presenciaram um manifestante ser baleado na cabeça durante a manifestação, mas ainda não há detalhes do caso. Este protesto deve ser o auge de uma quinzena de manifestações violentas que deixaram ao menos cinco mortos, manifestantes em todo o país exigirão que o governo apresente um cronograma para as eleições adiadas no ano passado, deixe de reprimir os protestos e respeite a autonomia do Legislativo comandado pela oposição. 

"Estamos assustados, mas temos que fazer isso", disse Carmen Medina, uma assistente social de 55 anos moradora do distrito de classe média de El Paraíso, um dos pontos onde os manifestantes começaram a se reunir. "Estamos marchando pela liberdade de nosso país."

Os organizadores do ato desta quarta estabeleceram 26 pontos de saída para a manifestação que pretende chegar à Defensoria do Povo, no centro de Caracas, reduto chavista. 

Aliados do governo já anteciparam que, como sempre, não vão deixar que entrem nessa área. "Toda Caracas será tomada pelas forças revolucionárias, e não nos perturbem", advertiu o deputado Diosdado Cabello, um dos mais poderosos líderes do chavismo.

Referindo-se à "mãe das marchas", o vice-presidente do Parlamento, Freddy Guevara, convocou os membros e simpatizantes da oposição a "transbordar as ruas para dizer a Maduro que não permitiremos uma ditadura".

Maduro diz que os recentes protestos são parte dos esforços da oposição para fomentar a violência no país e derrubar seu governo. Ele pediu aos apoiadores do Partido Socialista Unido da Venezueça (PSUV)que realizem uma marcha concorrente em Caracas.

O presidente venezuelano alega ainda disse que os atuais protestos ecoam os de 2002, que levaram a um breve golpe contra seu antecessor e mentor, o falecido líder socialista Hugo Chávez. Esse golpe levou a uma ampla reforma das forças armadas, que agora proclamam abertamente seu apoio a Maduro.

Líderes da oposição dizem que o aprofundamento do colapso econômico na Venezuela, onde milhões de pessoas lutam diariamente contra escassez de alimentos, será decisivo para mudar o país. "Este é um governo em fase terminal", disse líder opositor Henrique Capriles. "Isso vai aumentar... e forçar Maduro e seu regime a realizar eleições livres e democráticas", previu.

Tensão no limite. O governo alega que a oposição promove o "terrorismo" e a violência nas marchas para levar a um golpe de Estado. Já seus adversários acusam as autoridades de repressão e de torturar os presos.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, advertiu que "as recentes ações do regime (chavista) de distribuir armas entre civis e animá-los ao confronto constitui uma ação repressiva homicida que incita à violência".

"As manifestações pacíficas são um instrumento de paz, democracia e liberdade. Por isto, no dia 19 de abril, os direitos do povo (...) devem prevalecer sobre qualquer lógica de política repressiva", declarou Almagro.

Na segunda-feira, em um ato militar, Maduro anunciou que o corpo de milícia, criado por lei há sete anos, chegará a 500 mil civis, cada um com seu fuzil. Segundo o presidente, trata-se de se preparar para uma eventual "intervenção estrangeira".

Nesse mesmo evento, ao apoiar Maduro e acusar a oposição de seguir uma "agenda criminosa" com ajuda do exterior, o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, alegou que restabelecer a ordem pública não é "repressão".

Onze países latino-americanos pediram à Venezuela que "garanta" o direito à manifestação pacífica e lamentaram as mortes ocorridas nos protestos. "É vulgar o duplo padrão e a seletividade política desses governos para justificar a violência vandálica da oposição", reagiu a chanceler Delcy Rodríguez.

Eleições, o objetivo. Os protestos explodiram em 1º de abril, depois que o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) assumiu as funções do Parlamento e suspendeu a imunidade dos deputados.

Embora as sentenças tenham sido anuladas parcialmente após forte pressão internacional, a oposição recuperou o fôlego e o apoio popular perdidos quando o poder eleitoral frustrou, em 2016, sua meta de revogar o mandato de Maduro em um referendo, e eles então aceitaram dialogar com o governo.

Ainda que suas decisões sejam consideradas nulas pelo TSJ, a Assembleia Nacional nomeou na terça-feira uma comissão para um processo de remoção de magistrados. 

"A oposição está mais unida do que nunca. Essa é uma força relevante e nova. É provável que seja a maior marcha contra o chavismo, mas não podemos prever que impacto terá além das percepções", opinou o analista Luis Vicente León.

Alguns observadores acreditam que o governo, para acalmar os ânimos, anunciará em breve uma data para as eleições de governadores. Essa votação deveria ter acontecido em 2016. A oposição garantiu, porém, que vai parar somente quando atingir todos seus objetivos.

O governo descarta a antecipação da eleição presidencial, mas diz estar ansioso para as disputas de governadores e prefeitos. Hoje, sete em cada dez venezuelanos reprovam a gestão de Maduro. Analistas consideram, assim, que o governo dificilmente venceria uma eleição nessa conjuntura e estaria apenas tentando ganhar tempo. / AFP, REUTERS e EFE

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