RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO
RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO

Opositores revisam estratégia para evitar triunfo kirchnerista no 1º turno

Conservador Macri e peronista dissidente Massa reduzem troca mútua de acusações e concentram artilharia sobre o governista Daniel Scioli, que está à beira de alcançar o número de votos necessário para vencer sem a necessidade de uma 2ª votação

Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2015 | 05h00

BUENOS AIRES - Os dois principais nomes da oposição argentina têm duas semanas para reverter a tendência de vitória kirchnerista na eleição do dia 25 e, para isso, revisaram suas estratégias. Ainda que briguem por um lugar no segundo turno, o conservador Mauricio Macri e o ex-kirchnerista Sergio Massa trocarão menos ataques e concentrarão artilharia no governista Daniel Scioli, que beira o necessário para vencer no primeiro turno.

A campanha de Macri, empresário que há oito anos governa Buenos Aires, tinha como base visitar casas de eleitores para escapar da pecha de oligarca, não fazer propostas e evitar alianças que “maculassem” sua coalizão, a Cambiemos. Após perder 20% das intenções de voto em dois meses, praticou semana passada um contorcionismo ideológico ao inaugurar uma estátua de Perón para derrotar o peronismo. À direita de Macri, sob a sombra do general ícone do kirchnerismo, estava Hugo Moyano, líder do principal sindicato do país, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), outra adesão peronista de última hora a sua campanha. Moyano rompeu com Cristina em 2011.

Antes da votação na primária obrigatória de agosto, Macri rejeitou disputar a indicação com Massa, que foi chefe de gabinete de Cristina Kirchner em 2008 e 2009 e rompeu com o governo em 2013. A orientação do marqueteiro Jaime Durán Barba – que trabalhou na campanha de Marina Silva, no Brasil, em 2014 – era de que ele não se aproximasse de ex-kirchneristas como Massa e Moyano. A eleição seria polarizada e se definiria pela parcela que deseja mudança (60%, segundo a média dos institutos de pesquisa). 

A divisão clara prevista por Barba e analistas políticos não ocorreu. Pelo contrário, Massa captou 33% dos votos perdidos por Macri nos últimos dois meses e vem reduzindo a distância. Esse cenário, em que a coalizão de Macri encolhe – passou de 30% na primária disputada em 9 de agosto para 27,9% – e a de Massa sobe devagar (foi de 20% para 21,5%) convém ao governo. Scioli tem 38,6%. Esses dados, da consultoria M&F, são similares aos que divulgou ontem o outro grande instituto de pesquisas argentino, o Poliarquía, segundo o qual Scioli tem 37,1%, Macri obtém 26,2% e Massa alcança 20,5%.

Para o kirchnerista encerrar a disputa no primeiro turno, bastaria chegar aos 40% dos votos – a outra condição, abrir 10 pontos sobre o segundo colocado, parece mais fácil. Scioli não cresceu desde a primária, mas poderia conseguir o que precisa com uma pequena parcela dos que se definem na última hora.

 

Um esboço de trégua na oposição ocorreu no debate do dia 4, quando a ausência de Scioli levou tanto Macri quanto Massa a bombardear políticas kirchneristas. “Agora que nos aproximamos de Macri, concentraremos fogo no kirchnerismo”, disse um dirigente massista ao Estado na terça-feira. Massa contrariou projeções e subiu fazendo propostas de linha conservadora concretas e provocando os rivais, a quem acusa de não dizer o que farão se ganharem. 

Voto útil. Ontem, Macri divulgou nas redes sociais uma carta em que, sem criticar Massa, prega o voto útil para derrotar o kirchnerismo. “Se os que desejam mudança esperam para tomar decisões num segundo turno, há o risco de o governo ganhar e se perpetuar no poder”, escreveu. Massa contra-argumenta que tem mais chance num confronto direto com Scioli e por isso o voto no prefeito de Buenos Aires é inútil. Os eleitores de Macri aderem a Massa com mais facilidade em um segundo turno, enquanto os de Massa se dividem. 

O fracasso dos opositores de mostrar-se como “voto útil” é uma das razões para a dianteira aberta pelo kirchnerista. “A polarização se frustrou também porque a divisão na sociedade é menor se a presidente não é candidata a nada. Outro fator é que o principal líder opositor, Macri, não entusiasma”, avalia o sociólogo Ricardo Rouvier. 

Em entrevista a correspondentes na semana passada, Macri desrespeitou parcialmente outra orientação de seu marqueteiro: evitar fazer propostas, para não ser pego em contradição. Prometeu pressionar a Venezuela a soltar o opositor Leopoldo López e “reconstruir” o Mercosul. Em temas econômicos delicados, como o ajuste que pretende implantar no primeiro dia no cargo, com derrubada imediata do controle ao dólar, passou a palavra a assessores.

Segundo o analista político Eduardo Fidanza, diretor do Poliarquía, Macri perdeu terreno na classe média do centro do país – as províncias de Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé, Entre Ríos e a capital, território em que estão 60% dos eleitores. “Macri deveria tentar recuperar os opositores apoiaram Massa. Acho que falta a ele carisma e um discurso mais concreto. Massa fala em termos diretos e toca em temas sensíveis a esse público: insegurança, imposto de renda, manipulação dos planos sociais e professores que faltam às aulas”, avalia Fidanza.

Se houver segundo turno, provavelmente será entre Scioli e o “novo Macri”, que com a flexibilização garantiu ao menos o voto de Hugo González. Enquanto esse peronista fanático vendia na quinta-feira camisetas de Perón e Evita no comício macrista, o candidato elogiava o general que aumentou o tamanho do Estado nas três vezes em que presidiu o país. “Macri é milionário mas é do povo”, sustentava González.

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