Josep Lago / AFP
Josep Lago / AFP

Opostos se unem contra independência catalã

Unionistas agrupam de jovens liberais ‘antifronteiras’ até idosos saudosos de Franco

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 05h00

Dezenas de milhares de estudantes catalães foram às ruas de Barcelona nesta quinta-feira, em uma nova demonstração de força em favor do plebiscito de independência da Catalunha, previsto para este domingo.

Tido como “ ilegal” pelo Tribunal Constitucional e pelo governo de Mariano Rajoy, a votação segue mobilizando a opinião pública na segunda maior cidade da Espanha. Mas, em meio aos protestos e às demonstrações de nacionalismo, uma enorme parte da população segue quase inaudível: os unionistas, catalães que não desejam a secessão da Espanha.

A três dias do plebiscito que pode servir como uma etapa decisiva na fratura entre Barcelona e Madri, a reportagem do Estado foi ao encontro dessa fatia da opinião pública que não se mobiliza, nem vai às ruas, mas é considerada a maioria dos catalães.

Uma pesquisa de opinião de julho, realizada pela administração regional da Catalunha, indicou que 41% desejam a separação e 49,4% não querem saber de independência. Esses eleitores estão dispersos entre os 7,5 milhões de habitantes da região e são em grande parte espanhóis ou descendentes nascidos em outras partes do país. Muitos afirmam simpatizar com causas independentistas, como o fim da monarquia e a adoção da república, mas não concordam com a criação de uma fronteira.

Há desde jovens progressistas apegados à ideia de um mundo sem barreiras até senhores que sentem saudade da repressão imposta por Madri durante a ditadura de Francisco Franco.

Em meio à manifestação estudantil desta quinta-feira, realizada na Praça da Espanha, o jovem Guillermo Santos, de 21 anos, destoava da paisagem por não portar a bandeira amarela, vermelha e azul da Catalunha, mas uma boina que lembra a de Che Guevara, coerente com alguém que se define como “anarco-comunista”.

“Não creio que uma pátria ou uma bandeira faça homens livres. E também não acredito em fronteiras”, disse o jovem catalão, que se define como “cidadão do mundo”.

Protestando entre os manifestantes que defendiam o plebiscito, Guillermo disse ter ido à rua ontem para defender o direito de expressão do povo catalão – mesmo que não concorde com a causa. “Vim em apoio à democracia e à liberdade de votar. O governo da Espanha, de Mariano Rajoy, ou a coroa espanhola também não me agradam nada. Creio que as pessoas vão às ruas pedir a independência por acreditar nisso, mas em parte também por rejeição ao governo de Madri, a Rajoy e à coroa.”

Para os unionistas, o atrito entre autoridades de Barcelona e de Madri é explicado por razões históricas, como a abolição do idioma catalão durante a ditadura de Francisco Franco, mas também por fatores conjunturais.

Muitos citam como combustíveis do independentismo a crise econômica grave, quando o desemprego chegou a 25% da população ativa, a adoção de medidas impopulares como o confisco de casas de espanhóis endividados – ao mesmo tempo em que o sistema financeiro recebeu bilhões em socorro –, a pouca autonomia da administração regional e a transferência de impostos de Barcelona a Madri. Somam-se ainda as muitas denúncias de corrupção envolvendo Rajoy e o Partido Popular (PP), e a monarquia, vista como cara e anacrônica.

Professora de escola pública do governo regional, Maria Carmen S., de 47 anos, pede para não ser identificada porque tem “um pouco” de receio de represálias no trabalho. Moradora de Carrer de Santa Ágata, uma das ruas do bairro boêmio e intelectual de Gracia, a funcionária pública diz compreender as causas dos catalães que lutam pela secessão, mas ela é contra. 

“Sou nascida na Catalunha, com família da Andaluzia. Sinto-me dividida em termos de identidade, mas não sou independentista. O mundo para mim é único e não deveriam existir fronteiras. Não quero uma fronteira com a Espanha”, disse. No bairro de Gracia, tremulam mais bandeiras independentistas nas janelas. Além das bandeiras, os separatistas têm ostentado um símbolo inusitado em defesa da causa, o personagem Piu Piu.

Desde que o governo espanhol enviou 5 mil policiais a Barcelona em dois navios de cruzeiros, um deles com os desenhos dos personagens do Looney Tunes, o Piu Piu tornou-se o símbolo dos separatistas, que ridicularizaram Madri.

Segundo Maria Carmen, o radicalismo do confronto entre autoridades de Barcelona e Madri, que se reflete em falta de diálogo, nas 14 prisões políticas, no confisco de milhões de cédulas eleitorais e no fechamento de seções de voto não representa o verdadeiro estado de espírito da população.

“Tirando alguns independentistas catalães muito radicais, em geral, as pessoas são muito abertas. Estão lutando por um ideal, por seu sentimento, mas não são um povo violento ou nacionalista. Há um grupúsculo muito radical, mas isso existe em toda parte, até mesmo no Brasil.”

Situado a cinco estações de metrô de Gracia, o Nou Barris tem o perfil social oposto. Em lugar de classe média e alta, de artistas e intelectuais de esquerda, o bairro reúne assalariados, operários, aposentados e grande parte dos trabalhadores espanhóis que migraram para a Catalunha nos anos 60 e 70.

Nas ruas, é muito mais fácil encontrar quem prefira falar castelhano do que catalão e, nas janelas, há mais bandeiras espanholas do que separatistas. Na pesquisa de opinião encomendada pelo governo regional, apenas 29,1% dos habitantes do bairro defenderam a secessão.

Manolo Martín, de 75 anos, aposentado, é um desses que rejeitam a independência. “Creio que esse plebiscito não vai nem ocorrer. Sou contra a independência e acho que devemos nos sentir espanhóis. Com todas as letras: não pode haver plebiscito, porque não é legal”, disse. Nascido em Sevilha, na Andaluzia, sul da Espanha, Martín foi viver na Catalunha com 12 anos, “como um imigrante”. Hoje, 63 anos depois, continua contrário à separação. 

Questionado sobre por que os unionistas não se mobilizam para votar ou ir às ruas, manifestar sua opinião, o aposentado justifica: “Nós não precisamos nos mobilizar porque o governo já se mobiliza pelo ‘não’”. Seu medo, conta, é a desintegração do país. “A Espanha é uma colcha de retalhos. Se cada uma das 17 comunidades que constituem o país, como País Basco, Galícia, Valência, Andaluzia, quiserem a independência, a Espanha desaparece.”

Na Catalunha, uma região conhecida por seu progressismo político, ser unionista é associado a ser militante da direita, eleitor do PP ou “franquista” – ou seja, defensor da ditadura de Franco, que governou o país com mão de ferro entre 1939 e 1975. Na maior parte das vezes, esse não é o caso. Mas às vezes, é. 

Esse é o caso de Martín Ramos, ex-operário de 81 anos. Indignado com o movimento de secessão, ele define seus militantes como “fanáticos que não se importam com nada”. “Vivi e trabalhei 50 anos, toda a minha vida aqui na Catalunha. Então, posso dizer: os líderes independentistas são todos ladrões e querem roubar mais”, disse, acrescentando: “A independência que vá à m…”.

 

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