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REUTERS/Goran Tomasevic

Oriente Médio e ONU criticam UE por fechar suas fronteiras aos refugiados

Países alertam que se nada for feito, outras nações podem entrar em colapso, criando ainda mais instabilidade na região

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Jamil Chade, correspondente / Genebra,
O Estado de S. Paulo

30 Março 2016 | 08h07

GENEBRA - Países do Oriente Médio e a ONU se unem para criticar a Europa e outros países ricos diante do fechamento das fronteiras para refugiados sírios e alertam que, se nada for feito, outros países podem entrar em colapso, criando ainda mais instabilidade na região. 

Reunidos na sede da ONU nesta quarta-feira, 30, governos de todo o mundo tentam encontrar uma solução para os 4,8 milhões de refugiados sírios. Mas com países europeus fechando suas fronteiras, as críticas ganham força e o evento se transforma em um julgamento público das políticas europeias.

"Para cada três libaneses, temos um refugiado", disse Rachid Derbas, ministro de Assuntos Sociais do Líbano. "Aqueles na Europa que estão preocupados com o fluxo de refugiados precisam lembrar que, em apenas um vilarejo libanês de 30 mil pessoas, 80 mil refugiados hoje tentam sobreviver", explicou. 

O ministro ainda alertou: "Temos 2 milhões de refugiados. Se isso continuar, o Líbano viverá uma situação de fragilidade, podendo ser mais um problema para o mundo e portas abertas para os ventos do terrorismo", disse. 

O governo da Turquia, com 2,7 milhões de refugiados sírios, também criticou a União Europeia (UE). "Já gastamos US$ 10 bilhões com os refugiados. Mas a ajuda internacional é muito pequena. Até agora, recebemos apenas US$ 460 milhões", disse o vice-ministro de Relações Exteriores da Turquia, Ali Naci Koru. 

Ele ainda alertou: "não é porque estamos próximos que temos de assumir toda a responsabilidade". Segundo ele, dos 2,7 milhões de refugiados, apenas mil foram reassentados pelo mundo. Em 2016, foram apenas 206 pessoas.

Amr Ramadan, embaixador do Egito na ONU, também foi crítico contra Bruxelas. "A UE pode fazer muito mais do que tem feito", disse. "Vemos com consternação como a crise está sendo usada como um jogo político", afirmou. "É chocante ver como esses países fecham suas portas. E a comunidade internacional está em silêncio diante daqueles que fecham suas fronteiras e confiscam a propriedade dos refugiados", atacou. 

Saja Majali, embaixador da Jordânia, deixou claro que a crise dos refugiados se transformou em uma crise orçamentária para Amã. "Hoje, 25% de nosso orçamento vai para lidar com refugiados sírios", disse. "Somos um dos países com a maior falta de água no mundo. Mas o consumo aumentou em 22% em cinco anos diante do fluxo de refugiados", afirmou.

"145 mil estudantes sírios estão nas escolas da Jordânia. Mas outros 80 mil ainda esperam lugar. Nossos hospitais trataram 700 mil sírios", lembrou. 

Filippo Grandi, o alto comissário da ONU para Refugiados, admite que não há como dar uma solução para a crise sem a colaboração de todos. "Não podemos mais fechar as fronteiras e deixar todo o peso para os países da região", disse. 

"Se a Europa tivesse de receber a mesma proporção de refugiados do Líbano em comparação à sua população, a UE teria de abrir suas portas para 100 milhões de pessoas. O mundo precisa mostrar solidariedade", afirmou. 

Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, também apelou por "solidariedade". "Peço que novas promessas sejam feitas para admitir refugiados. Até agora, 178 mil lugares foram oferecidos. Mas essas vagas podem ser ampliadas", disse. 

Ban ainda criticou partidos políticos que tentam "demonizar" o fluxo de refugiados. "Isso não apenas é ofensivo, mas é factualmente incorreto", disse. "Peço que os líderes lutem contra informações incorretas com a verdade", afirmou.

"Hoje, essas pessoas são refugiados. Mas, amanhã, serão professores, pesquisadores e trabalhadores", disse. 

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