Os efeitos da guerra 

Ação dos EUA pode provocar confronto militar direto entre aliados ocidentais e a Rússia

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2018 | 07h00

EUA, Reino Unido e França bombardearam alvos na Síria, para punir o regime e tentar desmantelar a sua capacidade de realizar ataques com armas químicas contra a própria população. A ação pode provocar um confronto militar direto entre os aliados ocidentais e a Rússia, que prometeu proteger a Síria.

Antes de ordenar a ação militar, Trump culpou seu antecessor, Barack Obama, a Rússia e o Irã, que apoiam o regime. O general Valeri Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, respondeu que elas reagiriam, se os bombardeios americanos colocassem em perigo militares do seu país. Trump tuitou na quarta-feira: “A Rússia promete derrubar todos os mísseis disparados contra a Síria. Prepare-se, Rússia, porque eles virão, bons e novos e inteligentes. Vocês não deveriam ser parceiros de um animal que sente prazer em matar seu povo com gás”.

Trump teve uma série de incentivos políticos para levar adiante sua ameaça, ainda que com uma ação de alcance calculado para evitar um confronto direto e uma escalada com as forças russas. A maior parte das iniciativas de seu governo tem sido motivada pelo desejo de se diferenciar de Obama: a tentativa de acabar com o Obamacare, o sistema que induz os americanos a contratar plano de saúde, e com o Daca, que regulariza a situação dos filhos de imigrantes ilegais que entraram nos EUA ainda crianças; a ameaça de romper o acordo nuclear com o Irã; a retirada da Parceria Transpacífico e do Acordo do Clima de Paris.

Em 2012, Obama ameaçou punir a Síria se o regime usasse armas químicas contra sua população. O regime as usou, em agosto de 2013, e os EUA não fizeram nada. Naquele momento, grupos islâmicos radicais se concentravam no norte da Síria e ganhavam força também na Líbia, e a Irmandade Muçulmana assumira o poder no Egito. Obama temeu facilitar a sua ascensão também na Síria.

Além disso, Trump está acuado politicamente. Congressistas republicanos e democratas consolidaram seus projetos de lei em uma única proposta para proteger de uma destituição, por parte do presidente, de Robert Mueller, chefe da comissão especial que investiga o envolvimento de assessores de Trump com a Rússia e o envolvimento russo na interferência nas eleições americanas de 2016.

O FBI fez uma busca no escritório e no quarto de hotel de Michael Cohen, advogado de Trump, procurando indícios sobre o encobrimento dos casos de uma atriz pornô e de uma ex-modelo da Playboy. Ambas afirmam ter recebido ofertas de dinheiro para não revelar os encontros que teriam tido com Trump. O mesmo teria ocorrido com um ex-porteiro da Trump Tower, que saberia de um filho do presidente, fruto de um relacionamento extraconjugal.

Trump mudou de posição em relação ao presidente russo, Vladimir Putin, do qual ele antes se mostrava um admirador. Renovou as sanções contra a Rússia e acrescentou novas, contra 7 empresas e 12 oligarcas ligados a Putin, expulsou 60 diplomatas e fechou o consulado russo em Seattle, em represália pelo envenenamento do ex-agente duplo Serguei Skripal, na Inglaterra.

O presidente americano nomeou para o cargo de secretário de Estado o ex-diretor da CIA Mike Pompeo e, para o Conselho de Segurança Nacional, o ex-embaixador John Bolton, ambos defensores do uso da força militar contra o Irã e a Coreia do Norte e de uma posição mais dura perante a Rússia.

Estou no Irã, e aqui há uma corrida da população aos bancos e às casas de câmbio, para trocar o rial por moedas fortes e assim se proteger do agravamento da situação econômica, seja pela ruptura do acordo nuclear e retomada das sanções, pela escalada na Síria ou até por uma eventual ação militar contra o Irã. Correntes conservadoras do regime iraniano falam em retomar o programa nuclear, se o acordo for rompido. Isso levaria a uma corrida armamentista em toda a região, e a uma provável ação militar de Israel contra o Irã. Um novo efeito dominó foi desencadeado no Oriente Médio.

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