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Os EUA não conseguirão deter o tsunami sectário

- Atualizado: 11 Janeiro 2016 | 03h 00

Essa luta entre seitas confundiu a política externa americana no passado e continuará limitando a capacidade de Washington de estabilizar a região

Nos últimos 20 anos, os Estados Unidos adotaram numa estratégia conceitual própria no Oriente Médio – ditadura versus democracia, secularismo versus religião, ordem versus caos. Mas a tendência mais significativa que caracteriza a região hoje é um pouco diferente – sunitas versus xiitas. Atualmente, essa luta sectária contamina quase todos os aspectos da política da região. Confundiu a política externa americana no passado e continuará limitando a capacidade dos Estados Unidos, ou de qualquer outra potência externa, de estabilizar a região.

Em seu livro profético The Shia Revival, Vali Nasr afirma que o divisor de águas foi a invasão americana do Iraque, em 2003. Os EUA estavam convencidos de que deveriam levar a democracia ao Iraque, mas o que o povo viu foi algo muito diferente – a mudança da relação de forças. Os sunitas, que constituem 85% dos muçulmanos, dominavam há muito tempo o mundo árabe, mesmo em países de maioria xiita, como o Iraque e o Bahrein. Ocorre que, repentinamente, a situação mudou. O Iraque, grande país árabe, passou a ser governado por xiitas. Isso abalou outros regimes árabes e sua ansiedade só cresceu desde então.

 
 
Embora as tensões tenham sempre existido, sunitas e xiitas viviam em paz, na maior parte do tempo, até recentemente. Nos anos 60 e 70, a única potência xiita, o Irã, era governada pelo xá, cujo regime não era nem religioso nem sectário. Na realidade, quando o xá foi derrubado, o primeiro país que lhe ofereceu abrigo foi o Egito, a maior potência sunita da região, algo inimaginável no clima sectário de hoje.

A mudança fundamental ocorreu em 1979. A Revolução Islâmica do Irã levou ao poder uma classe de agressivos dirigentes religiosos, determinada a expor suas ideias e a apoiar os xiitas da região. No mesmo ano, na Arábia Saudita, radicais militantes tomaram a Grande Mesquita da Meca, proclamando a oposição à família real e ao seu governo negligente. O acontecimento apavorou os sauditas, fazendo com que o regime se deslocasse substancialmente para a direita religiosa. Por outro lado, a ideologia do Islã wahabita que governava a Arábia Saudita fora sempre antixiita. Na época da sua fundação, a Arábia Saudita demoliu mesquitas e santuários xiitas e disseminou sua visão dos xiitas como hereges.

À medida que o Irã foi expandindo sua influência no Líbano, Iraque e Síria, a Arábia Saudita reagiu com a adoção de uma política de tendência ainda mais sectária. Há dez anos, as autoridades sauditas falavam da necessidade de inclusão e de conceder autonomia à minoria xiita da região. Hoje, os xiitas sauditas são olhados com desconfiança; alguns os consideram até mesmo agentes do Irã.

No Iêmen, a guerra civil tornou-se um conflito sectário. Num relatório elaborado para o Carnegie Endowment for International Peace, Farea al-Muslim destaca que agora os dois lados no Iêmen se definem como persas e daeshitas (ou integrantes do Estado Islâmico). Al-Muslim escreve que “o discurso sectário tornou-se mais inflamado, buscando reorganizar a sociedade iemenita segundo linhas sectárias e reformular as relações sociais de acordo com uma base não nacionalista”.

A Arábia Saudita tem preocupações estratégicas justificadas a respeito da influência do Irã, principalmente no Iraque. Como Ali al-Shihabi, um banqueiro saudita que se tornou escritor, afirmou: “O Iraque meridional está repleto de milícias que têm o apoio do Irã. A região fica a apenas duas horas de automóvel dos campos de petróleo da Arábia Saudita. O reino tem de estar mesmo preocupado”.

Mas a política da guerra sectária talvez se refira a algo mais do que a simples geopolítica. A Arábia Saudita enfrenta uma série de desafios, do Estado Islâmico aos extremistas nacionais. A grande e ativa mídia social do país é dominada por islamistas radicais. E à medida que os preços do petróleo foram despencando, as receitas do governo entraram em colapso, e os generosos subsídios que a nação destinava a seu povo só serão mantidos a um custo muito elevado. O regime precisa de maior legitimidade.

Acrescente-se a isso a execução, no fim de semana passado, de um respeitado clérigo xiita, o rompimento com o Irã, a guerra no Iêmen e a política saudita em relação à Síria, e teremos uma política externa mais explícita, agressiva e sectária do que a Arábia Saudita jamais adotou. A estratégia não deixa de ter riscos, externos e internos. Cerca de 10% a 15% dos habitantes da Arábia Saudita são xiitas, e vivem nas províncias orientais, onde se encontram os campos de petróleo do reino. Os vizinhos Iêmen e Bahrein agora estão repletos de xiitas rancorosos, que se sentem oprimidos pela Arábia Saudita. Com o tempo, o Irã certamente reagirá às ações sauditas.

Em geral, os EUA deveriam ajudar a Arábia Saudita a resistir à invasão do Irã na região, mas não deveriam tomar partido na luta sectária como um todo. Esta guerra civil não é do EUA. Afinal, o principal aliado de Washington na guerra contra o EI é o governo de Bagdá, dominado por xiitas. Além disso, a única grande ameaça contra os EUA no Oriente Médio é constituída pelos jihadistas radicais sunitas – muitos dos quais se inspiraram na Arábia Saudita que lhes forneceu dinheiro e doutrina. Nesta história, os personagens bonzinhos são poucos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É colunista

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