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Os indesejados na França

Gilles Lapouge

Gostaríamos muito de desviar a mente para outra coisa, escrever um artigo sobre Barack Obama, sobre pesca, a próxima coleção de alta costura de Karl Lagerfeld ou até mesmo sobre Nicolas Sarkozy. Mas é impossível. Está ainda diante dos nossos olhos, há dois dias, uma imagem impossível de afastar.

Bem próximo de Paris, no departamento de La Seine-Saint Denis, um dos mais pobres da França, os pedestres observam um carrinho de supermercado abandonado. No carrinho, um corpo. Quase morto. Ensanguentado. Um corpo completamente fraturado. Este corpo era de um jovem cigano (um roma) de 16 anos. Seus agressores (não identificados) não são membros de nenhum bando rival, como é frequente.

Foram moradores do bairro que se vingaram do jovem porque ele havia roubado uma casa.

É preciso dizer que os romas não são apreciados na localidade. Há quinze dias uma comunidade inteira deles, expulsa de outra área, instalou-se no bairro "Os Poetas". E logo em seguida aumentaram os roubos e os furtos, deixando loucos os habitantes da localidade. Além do que, sabemos o que são esses romas! Ladrões, delinquentes, nem mesmo falam francês! Assim, os vizinhos, tão pobres quanto esses ciganos, decidiram se agrupar. E planejaram uma operação. "São pobres que roubam os pobres", dizem eles.

E o governo? À época de Sarkozy, a polícia fazia uma limpeza nos campos de ciganos em condições atrozes. Sob o socialista François Hollande, a polícia também expulsa os romas em condições atrozes. E a um ritmo duas vezes mais rápido.

Os policiais chegam com seus caminhões basculantes, quebram tudo e dispersam os moradores, mulheres, idosos e crianças. Às vezes, são embarcados em aviões que os levam de volta para Hungria ou Bulgária. Mas as famílias expulsas retornam semanas depois. Procuram outro local, ficam alojadas num estacionamento ou num trecho de estrada.

E como sobrevivem? Roubando pequenas coisas. "Mas eles precisam trabalhar", afirmam os franceses. "Trabalhar! Que termo bizarro!" Eles não têm nenhum entusiasmo para isso e não sabem fazer nada. Não sabem nem ler. Contar menos ainda.

"Enfim, que vão para a escola!" Uma boa ideia, mas não há escola para os romas. Conclusão: não têm um tostão. E, como também não têm moral, mendigam, colocam os filhos para esmolar. Mas não é suficiente. Então, roubam.

Na França há 17 mil romas. Na Bulgária são 750 mil, 10% da população.

Segundo a Comissão Europeia, esse pequeno país, que não é rico, esforça-se ao máximo para integrá-los. Por exemplo, eles devem frequentar escola maternal por, no mínimo, dois anos. Na Hungria são também 750 mil, 7,5% da população. E o país tem adotado medidas para assimilá-los. O Código Penal foi revisado e foram previstas sanções duras no caso de violência contra pessoas pertencentes a comunidades étnicas.

Na Hungria é a extrema direita quase fascista de Orban que está no poder. Na França, são os valentes socialistas de François Hollande. E os romas, que são apenas 17 mil, não têm espaço, escolas e tampouco ajuda. Nada. E, quando pegamos um deles, nós o espancamos e o colocamos num carrinho de supermercado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Gilles Lapouge é correspondente em Paris