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Internacional

Visão Global

Os perigos de uma Europa enfraquecida

EUA ou Europa fortes não ameaçam recíprocos interesses. Mas se a Europa enfraquecer poderá prejudicar ambas as partes

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JOSEPH S. NYE*,
O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2016 | 04h00

O secretário de Estado americano Henry Kissinger, após um período durante o qual os EUA voltaram suas preocupações para Vietnã e China, declarou 1973 o “ano da Europa”. Mais recentemente, depois que o presidente Barack Obama anunciou uma mudança da estratégia americana, ou de reequilíbrio, em relação à Ásia, muitos europeus temeram ser negligenciados pelos EUA. Agora, em plena crise dos refugiados, com a ocupação do leste da Ucrânia e a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia, e a ameaça da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, 2016 poderá se tornar, por necessidade, mais “um ano da Europa” para a diplomacia americana.

A Europa mantém um impressionante poder e é de interesse vital para os EUA. Embora a economia americana seja quatro vezes maior que a da Alemanha, a da UE, com seus 28 membros, é igual à dos EUA, enquanto sua população de 510 milhões é consideravelmente maior que a dos EUA, de 320 milhões. De fato, a renda per capita dos EUA é mais elevada, mas em termos de capital humano, tecnologia e exportações, a da UE equivale àquela em termos econômicos. 

Quanto ao poderio militar, a Europa gasta menos da metade do que os EUA destinam à defesa, mas tem mais homens e mulheres no serviço militar. A Grã-Bretanha e a França têm arsenais nucleares e uma capacidade limitada de intervenção na África e no Oriente Médio, mas ambas contribuem ativamente para os bombardeios aéreos contra o Estado Islâmico.

Quanto ao poder brando, a Europa exerce há muito tempo um grande apelo, e os europeus têm desempenhado um papel fundamental nas instituições internacionais. Segundo um estudo recente realizado pelo Portland Group, a Europa tinha 14 países na lista dos 20 mais importantes. 

A questão básica na avaliação da extensão do poder da Europa é saber se a EU preservará um grau de coesão suficiente para se manifestar unanimemente sobre uma grande variedade de problemas internacionais, ou permanecer um agrupamento limitado, definido pelas diferentes identidades nacionais de seus membros, por suas culturas políticas e políticas externas.

A resposta varia de acordo com o problema. Nas questões de comércio, por exemplo, a Europa é igual aos EUA e pode contrabalançar o poderio americano. O papel da Europa no FMI só fica atrás do dos EUA (embora a crise financeira tenha reduzido a confiança no euro). No mundo cibernético, a UE estabelece padrões globais de proteção da privacidade, que as companhias multinacionais americanas e internacionais não podem ignorar. Mas a unidade europeia esbarra em sérios limites. As identidades nacionais continuam mais fortes do que uma identidade europeia comum. E as instituições da UE passaram a ser o alvo da xenofobia dos partidos populistas de direita.

A integração jurídica está aumentando na UE, mas a integração da política externa e da política de defesa continua limitada. Por outro lado, o premiê britânico, David Cameron, prometeu reduzir os poderes das instituições da UE e submeter os resultados de suas negociações com os líderes da União a um referendo até o final de 2017. Se a Grã-Bretanha sair da UE, o impacto para a moral europeia será profundo – resultado que deve ser evitado, conforme os EUA deixaram claro, mesmo que devam fazer pouco para impedi-lo.

Em um prazo mais longo, a Europa enfrentará graves problemas demográficos, em razão da baixa natalidade e da escassa disposição em aceitar a imigração em massa.

Embora a atual onda de imigração possa ser a solução para o problema demográfico europeu no longo prazo, ela ameaça a unidade europeia, apesar da excepcional liderança da chanceler alemã, Angela Merkel. Na maioria dos países europeus, tem havido uma profunda reação política negativa, em razão do constante aumento do ingresso (mais de um milhão de pessoas no ano passado) e da origem muçulmana de muitos recém-chegados. Além disso, está em jogo um importante interesse diplomático americano, mas não há muito que os EUA possam fazer a respeito.

Não existe nenhum perigo, no longo prazo, de a Europa tornar-se uma ameaça para os EUA, e não só por seus baixos custos militares. A Europa tem o maior mercado mundial, mas carece de união. E embora seu setor cultural seja impressionante, em termos de educação superior, e ainda que 27 das suas universidades estejam entre as 100 melhores do mundo, os EUA têm 52. Se a Europa superar suas divergências internas e tentar fazer frente aos EUA no plano global, essas vantagens poderão em parte contrabalançar o poderio americano, mas não o igualarão.

Mas, para os diplomatas americanos, o perigo não está na possibilidade de a Europa tornar-se forte demais, mas fraca demais. Se a Europa e os EUA permanecerem unidos seu poder se respaldará mutuamente.

Apesar dos inevitáveis atritos, a separação econômica é improvável, e Obama viajará para a Europa em abril a fim de promover a iniciativa. Os investimentos diretos em ambas as direções são maiores do que os investimentos na Ásia e ajudam a preservar os vínculos econômicos. E embora americanos e europeus não deixem de se criticar, compartilham entre si os valores da democracia e dos direitos humanos mais do que com qualquer outra região.

Os EUA fortes ou a Europa forte não ameaçam os recíprocos interesses vitais ou mais importantes. Mas, se a Europa enfraquecer em 2016, poderá prejudicar ambas as partes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* JOSEPH S. NYE É PROFESSOR EM HARVARD

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