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Os reis são mais úteis do que parecem

Serge Shmemann - O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 17h 27

Os chefes de Estado da realeza representam tradição, história e continuidade de um país e são capazes de se projetar além da política

MADRI - A decisão do rei Juan Carlos, da Espanha, de abdicar do trono aos 76 anos em favor do filho, o príncipe Felipe, de 46 anos, traz inevitavelmente de volta à tona dúvidas quanto à razão da existência de tantos monarcas que ainda reinam na Europa.

Parece incrível que 12 monarquias ainda sobrevivam no continente, embora o número inclua países como Andorra, cuja regência conjunta é do presidente da França (o outro é o bispo de Urgell); o Vaticano, governado pelo papa, e os principados de Mônaco e Liechtenstein, conhecidos nos selos e cartões postais.

As outras – Bélgica, Grã-Bretanha, Dinamarca, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Espanha e Suécia – estão entre as democracias mais liberais da Europa, mas conservam, mesmo assim, caros governantes hereditários com os recursos do país e, em geral, tratam a eles como se fossem a realeza.

É verdade que a maioria da nobreza trabalha para se sustentar. Aos 88 anos, idade em que a maioria das pessoas já se aposentou, a rainha britânica, Elizabeth II, ainda mantém uma árdua agenda de cerimônias de Estado. E é difícil imaginar o que fariam as revistas europeias de fofocas sem as intermináveis fotografias da realeza vestindo seus trajes mais elegantes para algum evento grandioso, sem os herdeiros reais ou os passeios de bicicleta e esqui fora dos castelos com os súditos, para não falar no seu envolvimento com escândalos constrangedores.

Num patamar mais sério, os chefes de Estado da realeza representam a história e a continuidade de um país. Os chefes de Estado republicanos, sejam eles politicamente poderosos, como nos EUA e na França, ou cerimoniais, como na Alemanha, envolvem a si mesmos com certo grau de pompa e tradição. No entanto, não podem fazer como os monarcas e elevar a si mesmos para além da política. E, mesmo quando as monarquias produzem escândalos de proporções reais, como no caso da princesa Diana, os políticos costumam ficar abaixo da realeza nas pesquisas de popularidade.

Todas as monarquias europeias enfrentam um eloquente coro pedindo a abolição dessas instituições e os países expõem cada vez mais seus governantes ao escrutínio popular. De sua parte, os governantes adaptaram seu estilo de vida e hoje beiram o mundano, sem perder, porém, as tradições mínimas responsáveis pelo valor simbólico.

O rei Juan Carlos se destaca entre esses anacronismos vivos. Foi preparado para governar por um ditador, o general Francisco Franco, que travou uma brutal guerra civil para impedir que a Espanha se transformasse numa república, conduzindo o país com mão de ferro por quase 40 anos.

Mas, quando Juan Carlos assumiu o trono, restaurado em 1975, desempenhou um papel fundamental ao guiar a Espanha para a democracia. O ponto alto do seu reinado ocorreu em 1981, quando militares tentaram dar um golpe e Juan Carlos, fardado, apareceu na TV para pedir o apoio da população.

Nos anos mais recentes, porém, sua posição se deteriorou bastante, em parte porque seus críticos consideravam seu estilo de vida grandioso demais para um momento de apuros econômicos, em parte por causa de alegações de corrupção envolvendo seu genro. Ao deixar de ser um símbolo unificador, ele faz bem em deixar o trono.

A possibilidade de a monarquia recuperar sua posição depende muito do príncipe herdeiro, que reinará como rei Felipe VI.

Apesar dos problemas recentes, Juan Carlos deu uma grande contribuição ao seu país e espera-se que Felipe honre seu legado. Embora um país nascido da rebelião contra a monarquia, como os EUA, não possa partilhar da alegria dos monarquistas devotos, pode-se reconhecer o valor de símbolos unificadores. E os americanos gostam de celebridades de contos de fada tanto quanto qualquer outro povo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL