País de classe média, Argentina perde 1,3 milhão para a pobreza em 3 anos

Número de pobres caiu progressivamente no país desde 2003, quando o kirchnerismo assumiu o poder, mas cenário mudou a partir de 2011

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2015 | 02h00

BUENOS AIRES - O kirchnerismo não conta o número de pobres na Argentina "para não estigmatizá-los" desde que o índice de cerca de 5%, divulgado pelo governo durante o último mandato de Cristina Kirchner, começou a destoar claramente da realidade e do retrato feito dela por institutos independentes. Segundo a Universidade Católica Argentina (UCA), em três anos, 1,3 milhão de integrantes da classe média entraram na pobreza.

Esse contingente representa a diferença entre os 24,7% identificados em 2011% e os 28,7% de 2014, dado divulgado pela UCA em maio e publicado pelo Estado em abril. Na crise institucional e econômica de 2001 e 2002, mais da metade dos 41 milhões de argentinos tornou-se pobre. O número de pobres caiu no país progressivamente desde 2003, quando o kirchnerismo assumiu o poder com Néstor, que governou até 2007.

O cenário mudou a partir de 2011, no segundo mandato de Cristina, ano para o qual não só a UCA como outros institutos apontam um desaquecimento econômico. Foi justamente naquele ano que Adelina Montero, moradora da Villa 21, de Barracas, a maior favela de Buenos Aires, com 45 mil habitantes, passou de um grupo a outro. Com pouco emprego, o pai de seu filho de 4 anos decidiu voltar para o Paraguai, sua terra natal. Com o marido em casa, a renda da família superava com folga os 5.717 mil pesos (R$ 2.369) que a UCA, com base na alimentação essencial de uma família, considera o mínimo para não estar na pobreza.

Adelina ganha 800 pesos num trabalho sem carteira assinada como babá e outros 800 no programa kirchnerista que paga uma bolsa por filho a desempregados - se tivesse um emprego formal, ela não poderia receber. "Não existe mais isso de classe média. Ou se é rico, ou se é pobre", afirmou a mulher de 25 anos ontem, enquanto caminhava apressada para buscar às 16 horas Matías na escola. Durante 15 minutos, ela atravessou as vielas da favela, pulou córregos de esgoto a céu aberto e andou pela margem do Riachuelo, o malcheiroso arroio que separa Buenos Aires de Avellaneda, já na Região Metropolitana.

No caminho, admitiu que nos últimos anos a inflação - 15% anual para o governo e 25% para consultorias - fez que com que ambos deixassem de gastar em supérfluos. Matías parou de ganhar brinquedos mas, segundo ela, não reclamou. Adelina defende o governo de Cristina, indicando que votará em seu candidato, Daniel Scioli, na eleição de domingo. "No Brasil, acho que ainda há muita fome. Aqui não sobra, mas não nos falta nada", assegurou. Ela gasta 500 (R$ 207) de seus 1.600 pesos (R$ 663) no aluguel do cômodo em que dorme numa cama de casal com Matías. Há geladeira e cozinha improvisada no mesmo ambiente. O banheiro fica fora. "Consegui alugar por esse preço porque as donas são conhecidas. Um barraco pode chegar a 1.500 pesos (R$ 621)", disse.

A moradia para jovens é, segundo Fabián Repetto, diretor do programa de proteção social do Centro de Implementação de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento, um dos maiores desafios do futuro governante. "Ao contrário do Brasil, há duas décadas a classe média argentina fazia uso de escolas, hospitais e moradias públicas. Isso mudou nos últimos anos." O governista Scioli planeja a construção de 250 mil residências por ano como forma de reverter o achatamento da classe média. Em segundo lugar nas pesquisas, o conservador Mauricio Macri promete lançar o programa Pobreza Zero. Ontem, no encerramento de campanha em Lanús, criticou Scioli, governador da Província de Buenos Aires: "Há municípios em que mais da metade não tem esgoto e água potável". Ele quer ainda ampliar o benefício recebido por Adelina, levando-o a adolescentes.

O ex-kirchnerista Sergio Massa acusa o governo de ter produzido, com os planos sociais que chegam a 28,7% dos lares do país, uma "fábrica de pobreza". Sua tática para criar empregos formais é diminuir em 30% a carga de impostos.

Repetto não vê grandes inovações nas propostas e acha que o kirchnerismo perdeu a oportunidade de, na bonança de 2006 e 2007, transformar os programas sociais em direitos consolidados em províncias e municípios. "Agimos como aquele que só procura o médico quando tem um infarto."

 

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