Palestinos pró-Bin Laden lutam com a polícia

Na pior luta interna palestina em anos, manifestantes opostos aos ataques aéreos dos Estados Unidos contra o Afeganistão travaram nesta segunda-feira um tiroteio com a polícia palestina na Universidade Islâmica, na Faixa de Gaza. Pelo menos duas pessoas morreram e 50 ficaram feridas. O banho de sangue realçou a crescente fricção entre a Autoridade Palestina, de Yasser Arafat, e grupos militantes como o Hamas, que promoveu os protestos desta segunda. O governo de Arafat tem tentado distanciar-se do suposto terrorista Osama bin Laden e exigido que militantes respeitem um cessar-fogo alcançado com Israel em 26 de setembro. As forças de segurança de Arafat também detiveram vários supostos militantes nos últimos dias. Entretanto, o Hamas assumiu responsabilidade por um ataque contra um assentamento judaico na semana passada e é contra a campanha americana no Afeganistão. Alguns partidários do Hamas carregavam fotos de Bin Laden nos protestos desta segunda-feira. Bin Laden pediu aos muçulmanos que apóiem a causa palestina num vídeo divulgado no domingo, no dia que tiveram início os ataques anglo-americanos ao Afeganistão. No vídeo, ele afirmou que "nem a América, nem o povo que lá vive sonhará com segurança antes que vivamos na Palestina". No protesto desta segunda-feira, mais de mil estudantes da Universidade Islâmica promoveram uma passeata em direção ao centro da Cidade de Gaza, mas foram bloqueados pela polícia palestina, que lançou gás lacrimogêneo, agrediu estudantes com cassetetes e fez disparos para o ar. "Longa vida à Palestina, longa vida ao Afeganistão, longa vida ao Islã", gritavam os estudantes. Poucos diziam: "Bin Laden, Bin Laden." A polícia conseguiu forçar os estudantes a voltar para a universidade. Forças de segurança também afastaram jornalistas e disseram-lhes para não noticiar a manifestação, parte de um esforço em curso para evitar que sejam divulgados atos de apoio a Bin Laden. No entanto, de volta à universidade, dezenas de manifestantes continuaram a batalha nas ruas próximas, jogando pedras, coquetéis molotov e ocasionalmente disparando armas de fogo. Enquanto os manifestantes incendiavam pneus nas ruas, a polícia efetuou diversos disparos para o alto e ocasionalmente contra aqueles que atiravam, segundo testemunhas. Confrontos emergiram em vários pontos nos arredores da escola, um foco de apoio ao Hamas. O comandante da polícia palestina, Ghazi Jabali, disse que a manifestação desta segunda era ilegal porque não foi coordenada com as autoridades. "A polícia palestina não vai permitir que esses grupos violem a lei palestina e prejudiquem a unidade nacional palestina", afirmou. Os dois mortos - um garoto de 13 anos e um estudante de 21 - apenas passavam pelo local e foram atingidos por atiradores mascarados que estavam dentro da universidade, segundo Jabali. Ele afirmou que os atiradores que se encontravam na universidade não eram estudantes. Entretanto, o Comitê Palestino de Direitos Humanos disse que não houve disparos vindos da universidade. O grupo culpou a polícia palestina pelas mortes, afirmando que ela fez "uso excessivo da força". Um terceiro palestino foi baleado na cabeça e estava em condições críticas. Ao todo, pelo menos 50 pessoas ficaram feridas, entre elas 15 policiais. A polícia fechou por uma semana a Universidade Islâmica e a vizinha Universidade Al Azhar numa tentativa de evitar novos confrontos. Líderes palestinos têm dito que as manifestações de apoio a Bin Laden são promovidas por uma minoria e que elas não deveriam receber maior atenção. As forças de segurança têm tentado evitar que jornalistas cubram os protestos. Nesta segunda-feira, autoridades palestinas impediram que um correspondente da emissora de TV BBC entrasse em Gaza. Um correspondente da Rádio BBC teve uma fita confiscada na cidade de Ramallah, Cisjordânia. As autoridades palestinas também pediram aos jornalistas para não mencionar, em seus artigos, os cartazes de Bin Laden que apareceram nesta segunda-feira no funeral de um palestino morto neste domingo na cidade de Hebron, na Cisjordânia. "Nosso querido Bin Laden, acerte Tel-Aviv", cantavam alguns participantes do funeral. Na segunda-feira, as lideranças palestinas criticaram novamente os ataques terroristas nos Estados Unidos, embora sem fazer comentários diretos sobre os bombardeios americanos. Ao se referir à manifestação de apoio de Bin Laden aos palestinos, o ministro da Informação da Palestina, Yasser Abed Rabbo, afirmou que os palestinos eram vítimas de "constantes crimes e matanças". "Mas isto não justifica ou dá razão para ninguém matar ou aterrorizar civis inocentes. Não queremos que sejam cometidos crimes em nome da Palestina", acrescentou Abed Rabbo. A resposta oficial das autoridades palestinas contrasta totalmente com a posição adotada na Guerra do Golfo, em 1991, quando o líder iraquiano, Saddam Hussein, afirmou que estava empreendendo uma guerra contra os EUA em nome dos palestinos. Na época, o líder da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, ficou ao lado de Saddam, contra os EUA. Funcionários palestinos reconheceram, privadamente, que a posição de Arafat foi um erro. Leia o especial

Agencia Estado,

08 Outubro 2001 | 18h23

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.