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Max Rossi / AFP

Papa se reúne com líder ortodoxo russo e critica perseguição a cristãos

Igrejas do Ocidente e do Oriente, rompidas desde 1054, buscam reaproximação e condenam ataques a fiéis na Síria e no Iraque

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O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2016 | 18h33

HAVANA -  O papa Francisco se reuniu nesta sexta-feira, 12, com o patriarca ortodoxo russo Kirill, num histórico encontro entre os líderes das igrejas do Ocidente e do Oriente, divididas desde o cisma de 1054. O encontro ocorreu em Cuba, em uma escala da viagem do pontífice para o México. Também foi divulgado um comunicado conjunto no qual católicos e ortodoxos manifestaram sua preocupação com a situação de minorias cristãs na Síria e no Iraque, vítimas de ataques do Estado Islâmico. 

“Finalmente”, exclamou Francisco ao abraçar o patriarca ortodoxo em uma sala no Aeroporto de Havana. “Somos irmãos.” Os religiosos trocaram cumprimentos e Kirill respondeu ao líder católico: “Agora as coisas serão mais fáceis.”

O encontro foi acompanhado pelo presidente cubano, Raúl Castro, e o cardeal de Havana Jaime Ortega. No total, Francisco permaneceria três horas e meio em solo cubano. 

No documento divulgado após a reunião em Havana, Francisco e Kirill pediram o fim do massacre de cristãos no Oriente Médio, principalmente na Síria e Iraque, onde os fiéis são alvos de radicais do Estado Islâmico. “Apelamos à comunidade internacional para evitar o extermínio de cristãos no Oriente Médio”, diz o texto. 

Segundo o porta-voz do papa, o padre Federico Lombardi, o encontro foi um momento histórico de muita alegria para o papa. Segundo ele, a reunião foi muito cordial. “Chegamos a uma meta e a um ponto de partida para um caminho de unidade e compreensão, que não é fácil, porém muito valioso”, declarou Lombardi. 

O patriarca russo afirmou que o encontro lhe permitiu entender e sentir a posição de Francisco em diversos temas . Ainda de acordo com Kirill, os dois líderes religiosos concordaram com a chance de católicos e ortodoxos cooperarem na defesa do cristianismo. 

“Os resultados da conversa permitem assegurar que as duas igrejas podem cooperar na defesa dos cristãos em todo o mundo”, disse Kirill. 

Pouco antes de se reunir a portas fechadas com o patriarca, Francisco agradeceu ao povo cubano. “Se continuarmos assim, Cuba se converterá na capital da união”, disse o papa, que teve papel fundamental na reaproximação diplomática entre a ilha e os Estados Unidos e nas negociações de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Diplomacia. O encontro e o comunicado, negociado há decadas, evidenciam a reputação de Francisco como um líder aberto ao diálogo, à construção de laços e a reaproximação com antigos rivais. Apesar do caráter histórico do encontro, no entanto, o papa foi alvo de algumas críticas em virtude da proximidade entre Kirill e o Kremlin – o patriarca é um aliado do presidente Vladimir Putin – e da vontade dos ortodoxos russos de se reafirmarem perante outras denominações orientais. 

A escolha do local do encontro, longe da Europa dividida entre católicos e ortodoxos, e próxima ao mesmo tempo da origem latino-americana do papa e do passado soviético russo, também foi escolhido com cuidado, segundo analistas. 

A Igreja Ortodoxa russa reúne a maior parte dos cristãos orientais: 165 milhões de um total de 250 milhões. Para especialistas, a reunião com o papa trata-se de uma maneira de fortalecer a igreja russa perante outras denominações ortodoxas, como a grega, a maronita e outras.

“Não se trata de benevolência, nem de um desejo pela unidade cristã, mas do desejo de Kirill de se apresentar como líder dos ortodoxos”, criticou o teólogo greco-ortodoxo George Demacopoulos, da Universidade de Fordham. 

Desde Paulo VI, papas têm se encontrado com o patriarca ecumênico – o primeiro entre iguais entre os ortodoxos –, que fica em Istambul. As duas igrejas divergem nos ritos e na primazia do papa sobre as demais denominações. /AP e REUTERS

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