AFP PHOTO / HO / HUTHI REBELS
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Para encerrar a guerra no Iêmen

Negociações deveriam envolver uma retirada escalonada dos combatentes houthis e o fim dos bloqueios sauditas

The Economist, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 05h00

Iêmen perdeu há muito o título de “Arabia Felix”, ou “Arábia Feliz”. Ele vem sendo castigado com guerras civis, tribalismo, violência jihadista e uma pobreza de apavorar. Mas nada disso se compara à desgraça hoje infligida ao país pela guerra entre uma coalizão liderada pelos sauditas e os houthis, uma milícia xiita apoiada pelo Irã.

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A ONU calcula que 75% dos 28 milhões de iemenitas necessitam de algum tipo de ajuda humanitária. Acúmulo de lixo, falta de esgoto e abastecimento precário de água levaram ao pior surto de cólera da história recente. O país está à beira da fome. A desintegração da economia deixou o povo diante de escolhas impossíveis. Todo dia, o hospital Al-Thara, em Hoeida, tem de decidir quais equipamentos essenciais vai usar, pois a escassez de combustível não permite que se usem todos ao mesmo tempo. 

O pior é que o mundo parece não se abalar mais com isso, calejado por anos de derramamento de sangue na Síria e em outras partes do Oriente Médio e sentindo-se impotente para tentar reverter a situação. Para usar uma abordagem cínica, o Iêmen fica muito mais longe da Europa do que a Síria e sua castigada população, em geral, não perturba o Ocidente em busca de asilo.

O mundo, porém, se esquece do perigo que poder vir do Iêmen. Vamos esquecer por um momento a obrigação elementar de aliviar o sofrimento da população civil e protegê-la. A crise iemenita é uma questão internacional. O mundo não pode tolerar que mais que um Estado se torne incubadora do terrorismo global. O Iêmen domina o Estreito de Bab al-Mandab, passagem de navios que utilizam o Canal de Suez. E, gostando ou não, o Ocidente já está envolvido com o problema. A coalizão saudita usa aviões e munição ocidentais e satélites do Ocidente orientam seus bombardeios. 

Como muito do que acontece hoje no mundo árabe, a agonia do Iêmen tem raízes nos levantes de 2011 conhecidos como Primavera Árabe. Protestos em massa, pressões dos petro-Estados vizinhos e o quase assassinato do então presidente, Ali Abdullah Saleh, o forçaram a renunciar, em 2012, em favor de seu vice, Abd Rabbo Mansour Hadi. Um esboço de Constituição de 2015 propunha um sistema federal de governo e um Parlamento dividido entre moradores do norte e do sul. Os rebeldes houthis, porém, que haviam lutado contra Saleh, rejeitaram a proposta. Seguidores do ramo zaidita do xiismo (como 40% dos iemenitas), os houthis queixavam-se, entre outras coisas, de que a nova Constituição os deixava confinados numa região de poucos recursos e sem acesso ao mar.

Ex-aliados de Saleh, que viu uma oportunidade de voltar ao poder, os houthis expulsaram Hadi da capital, Sanaa, e o fizeram fugir para Áden. A Arábia Saudita montou uma coalizão de países árabes e milicianos locais – entre eles, islamitas, salafistas e separatistas do sul – e forçou os houthis a recuar parcialmente. Durante o último ano, as frentes de combate quase não se modificaram. Os houthis não são suficientemente fortes para governar todo o Iêmen, mas têm força o bastante para que a Arábia Saudita não consiga derrotá-los. 

Como resultado, os iemenitas tornaram-se simples peões na luta regional pelo poder entre Arábia Saudita e Irã. Alarmados com a crescente influência iraniana, os sauditas já veem os houthis como os israelenses veem a milícia libanesa Hezbollah: uma perigosa força ligada ao Irã próxima de sua fronteira. De fato, os sauditas têm muito a aprender com a experiência israelense. Mesmo com armamento mais sofisticado, é quase impossível derrotar uma milícia entrincheirada na população civil. Enquanto o lado mais forte é acusado de castigar os civis, o lado mais fraco vê na própria sobrevivência uma vitória.

Assim, embora os houthis sejam os responsáveis pelo início das hostilidades e capazes de grande crueldade, os sauditas é que são acusados de crimes de guerra. A acusação geralmente se justifica. Organizações de direitos humanos dizem que os bombardeios sauditas costumam ter como alvo escolas, feiras livres, mesquitas e hospitais. E os bloqueios em terra levantam suspeitas de que os sauditas estejam usando os alimentos como arma de guerra. 

Quanto mais a guerra se prolongar, mais os aliados ocidentais dos sauditas serão cúmplices de suas ações. O presidente Donald Trump deu à Arábia Saudita carta branca para agir. Trump pode estar entendendo que tudo é parte do confronto com o Irã; pode querer apoiar as reformas liberalizantes do príncipe saudita, Mohamed bin Salman; ou pode estar visando ao lucro na venda aos sauditas de grande quantidade de armas americanas. 

Seja qual for o caso, ele está prejudicando interesses americanos. Exatamente pela importância da Arábia Saudita – o maior exportador mundial de petróleo e sede dos dois principais santuários do Islã –, o Ocidente deveria conter urgentemente o impetuoso príncipe e ajudar a afastá-lo de uma guerra sem vencedores.

Como? Conversações de paz conduzidas pela ONU começaram com a exigência de que os houthis se rendam, o que é irrealista. Melhor seria congelar o conflito e encontrar outro mediador, como Omã ou Kuwait. Um acordo deveria envolver uma retirada escalonada de combatentes houthis de Sana e da fronteira saudita, e o fim dos bloqueios sauditas. O Iêmen necessita de um governo inclusivo, de eleições e de uma nova estrutura para o Estado. A Arábia Saudita precisa de garantias de que armas iranianas não entrem no Iêmen. Depois, é preciso dinheiro para reconstruir o país. 

Nada disso será fácil. Mas uma razoável oferta de paz tem mais probabilidade de desmobilizar os houthis do que mais bombardeios. Por enquanto, longe de conter a influência iraniana, a guerra aprofundou a dependência dos houthis do Irã, o que é um meio fácil e barato de fustigar os sauditas. E, com a Arábia Saudita atolada no Iêmen, o Irã está mais livre para impor os termos de um acordo na Síria. Os sauditas deveriam então aprender outra lição da experiência israelense na luta contra o Hezbollah. Se guerras são inevitáveis, elas devem ser rápidas e com objetivos limitados. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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