Para enfrentar a violência extremista

Casa Branca evita usar expressão 'Islã radical' para não acirrar preconceito contra religião

PETER, SINGER, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

13 Março 2015 | 02h03

No mês passado, o presidente Barack Obama comandou uma reunião de cúpula de três dias sobre "Enfrentar o Extremismo Violento".

Esse termo já levou à criação de uma nova sigla "CVE" (do inglês Countering Violent Extremism) usada não menos do que 12 vezes numa ficha técnica divulgada pelo governo Obama em 28 de fevereiro. A ficha também emprega o termo "extremismo violento" 21 vezes.

Quantas vezes ocorrem termos como "Islã", "islâmico" ou "muçulmano"? Nenhuma. Não há qualquer referência ao "Estado Islâmico". Essa entidade é mencionada somente pelas iniciais "Isil".

Não foi por acaso. Isso fez parte de uma estratégia para ganhar o apoio dos muçulmanos comuns. Riham Osman, falando em nome do Muslim Public Affairs Council, que participou da cúpula, disse que usar termos como "Islã radical" prejudica a causa do fim da violência. Isso pode refletir, em parte, os compreensíveis temores da comunidade muçulmana de que a associação de Islã com terrorismo e violência contribuiria para ataques a (ou discriminação contra) todos os muçulmanos.

Outra razão que foi oferecida para não se referir a "radicalismo islâmico" ou ao "Estado Islâmico" é que isso reconheceria as pretensões dos terroristas de que eles estão agindo de acordo com os ensinamentos do Islã. Isso poderia atrair outros, que se consideram muçulmanos devotos, para se juntar a eles.

Finalmente, o uso repetido de "islâmico" como parte da descrição de grupos inimigos pode dar a impressão de que o Ocidente está "em guerra com o Islã". Isso poderia levar muçulmanos mais moderados a lutarem ao lado dos extremistas, ampliando assim o conflito e tornando mais difícil encerrá-lo.

Mas há problemas também na tentativa de evitar estes termos.

O primeiro é político. O senador conservador Ted Cruz, que pode poderia disputar a pré-candidatura republicana à eleição presidencial, disse: "Não podemos derrotar um inimigo quando nos recusamos a reconhecer o que ele é". Essa frase pode lhe render votos.

Aliás, nunca é uma boa ideia para um político parecer que está negando o que todos podemos ver diante de nossos olhos.

Além disso, como é óbvio para todos que a maior parte do extremismo violento está sendo praticada em nome do Islã, evitar a palavra provavelmente não impedirá ataques a muçulmanos em resposta a essa violência.

Outro problema fica aparente quando se pergunta por que é importante que líderes muçulmanos convencionais venham a público dizer que sua religião se opõe à matança de pessoas inocentes, ou que os que morrem cometendo tais atos não são "mártires" e não serão recompensados no além. Por que líderes muçulmanos em particular deveriam fazer tais declarações e não líderes cristãos, budistas, judeus e hindus? A resposta, de novo, é óbvia. Mas ela é óbvia só porque já sabemos que grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico e Taleban não estão obedecendo os preceitos de cristianismo, budismo, judaísmo ou hinduísmo.

Na cúpula em Washington, Obama disse que "todos nós temos a responsabilidade de refutar a noção de que grupos como o Isil representam, de algum modo, o Islã, pois isso é uma falsidade adotada pela narrativa terrorista". Ao menos esta declaração, diferentemente da ficha técnica da Casa Branca, reconhece que grupos como o Estado Islâmico pretendem ser islâmicos. Senão, qual seria a importância dessa declaração para "enfrentar o extremismo violento"?

Mas a afirmação de Obama de que "todos nós" temos esta responsabilidade precisa ser estreitada. Se eu tentasse entrar num debate com qualquer apoiador moderadamente bem educado do Estado Islâmico sobre se essa organização é fiel aos ensinamentos do Islã, eu perderia o debate. Não sou suficientemente especialista na tradição islâmica para saber se os extremistas a estão interpretando erroneamente, e poucos de nós somos. A responsabilidade a que Obama estava se referindo recai naqueles que são muito mais especialistas no Islã do que "todos nós".

Mesmo para pessoas que são especialistas em Islã, arcar com a responsabilidade que Obama colocou sobre elas não será fácil, como demonstra a leitura de um relato recente revelador de Graeme Wood. Ele apresenta um quadro de pessoas movidas por uma firme crença no Islã; e informadas sobre seus textos principais. Qualquer pessoa familiarizada com o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos deveria ser capaz de discernir um padrão nas atitudes tomadas por fundamentalistas religiosos, independentemente da religião a que aderem.

Apocalipse. Os porta-vozes do Estado Islâmico insistem em seguir os preceitos originais postulados pelo profeta Maomé e seus primeiros seguidores, entendidos literalmente e sem qualquer ajuste para circunstâncias diferentes. Como os fundamentalistas cristãos, eles veem se preparando para - e ajudando a provocar - o apocalipse.

Preciso ressaltar que não estou defendendo que as crenças dos fundamentalistas cristãos de hoje são moralmente equiparáveis às dos fundamentalistas muçulmanos de hoje.

Há uma enorme diferença moral entre os que se opõem a tirar uma vida humana inocente e os que matam pessoas por causa de sua nacionalidade, pelo que elas dizem ou porque são "apóstatas". Mas as visões de mundo dos fundamentalistas são semelhantes em aspectos importantes, independentemente da religião a que aderem.

Por enquanto, o problema de tentar enfrentar os que buscam novos recrutas para o "extremismo violento" sem focar na base islâmica desse extremismo deveria ficar claro. Deveríamos dizer aos que pensam em se juntar a um grupo islâmico extremista: você acredita que qualquer outra religião é falsa, mas os adeptos de muitas outras religiões acreditam com igual convicção que a sua fé é falsa. Você não pode realmente saber quem está certo, e vocês poderiam estar todos errados. Seja como for, você não tem uma justificativa suficientemente bem embasada para matar pessoas, ou para sacrificar sua vida.

Algumas pessoas certamente não estão abertas a nenhum tipo de arrazoado, e por isso não serão influenciadas por tais argumentos.

Mas outras serão. Por que descartar esta hipótese previamente negando que boa parte da violência extremista é religiosamente motivada? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE BIOÉTICA NA UNIVERSIDADE PRINCETON, E PROFESSOR EMÉRITO NA UNIVERSIDADE DE MELBOURNE. SEU PRÓXIMO LIVRO, THE MOST GOOD YOU CAN DO, SAIRÁ NO PRÓXIMO MÊS.

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