Jonathan Crosby|Reuters
Jonathan Crosby|Reuters

Paraguai se abre para restaurar laços

Oferecendo economia estável e vantagens para brasileiros fugirem da crise local, país vizinho busca reaproximação após período turbulento

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 05h00

Quase quatro anos após a crise institucional que levou à suspensão do Paraguai do Mercosul, o país vem buscando a reaproximação com os países oferecendo-se como um ambiente de economia estável no meio de uma crise que afeta a região, especialmente o Brasil. 

Para isso, o país exibe números e vantagens que têm chamado a atenção de investidores brasileiros. Recentemente, em evento na Fiesp, o presidente do Banco Central, Carlos Fernández Valdovinos, e o ministro da Fazenda, Santiago Peña, falaram sobre elas, procurando mostrar que o Paraguai quer deixar para trás o isolamento na região e firmar-se como uma terra de oportunidades. 

Segundo dados oficiais, o país cresceu 3% em 2015 e pretende repetir a marca este ano. A inflação está em 3,1% e o teto estimado pelo governo é de 4,5%. Além do cenário macroeconômico estável, o país promete vantagens como mão de obra e energia mais baratas, assim como um sistema simples de taxação e a Lei da Maquila – a joia da coroa para os investidores brasileiros. 

Esse sistema, criado para incentivar a instalação de indústrias estrangeiras, prevê a isenção de impostos para a importação de máquinas e matérias-primas. Dos produtos manufaturados, 90% são obrigatoriamente exportados e 10% direcionados ao consumo interno, segundo dados oficiais repassados pela Câmara de Comércio Brasil-Paraguai ao Estado

“O Paraguai começou a mostrar-se mais para o restante do mundo. Nesse processo, tem muita lógica que seu principal parceiro no Mercosul, o Brasil, nos veja com outros olhos”, disse, em entrevista coletiva, o ministro da Fazenda. 

E tem olhado. De acordo com os números do governo paraguaio, das 109 empresas que operam pelo regime de Maquila, 45 são brasileiras. Há também algumas que mantêm parceiras com outras empresas. No total, a exportação dos produtos para o Brasil representa 70% desse sistema. 

Segundo a gerente de Serviços de Internacionalização da Confederação Nacional das Indústrias, Sarah Saldanha, os investimentos brasileiros na indústria de transformação do Paraguai somaram US$ 124 milhões em 2014. Os dados da CNI são um termômetro desse interesse. Segundo Sarah, desde 2013, cerca de 400 empresas participaram de 7 missões da confederação para conhecer as oportunidades no país vizinho. Pelo menos metade indicou interesse, disse. 

“A energia é cerca de 60% mais barata com relação ao Brasil. Esse é um item que torna essa integração produtiva”, afirmou Sarah, ao Estado

O Brasil é o segundo maior investidor estrangeiro no Paraguai, atrás dos Estados Unidos. Segundo dados do Banco Central, esse investimento saltou de US$ 102 milhões em 2003 para US$ 856 milhões em 2014. 

Mas, segundo as autoridades paraguaias, em geral, os investimentos estrangeiros ainda estão aquém se comparados aos demais países da região. “O Paraguai é o que menos recebe investimentos diretos. Quando se olha para os outros países, a taxa média é de quase 5% do PIB. No caso do Paraguai, é metade disso”, diz Peña. 

A recessão dos últimos dois anos impulsionou alguns donos de empresas de médio porte, especialmente da área têxtil e de autopeças, a enxergar nos hermanos uma possibilidade de continuar crescendo.

O presidente da Altenburg, Rui Altenburg, afirmou que há dois anos está avaliando a possibilidade de abrir uma unidade no Paraguai. Mas ainda pondera alguns pontos, como o transporte marítimo, que encarece nos meses de nível baixo do rio, e diferenças nas leis trabalhistas. “O Paraguai está vivendo um momento de estabilidade legal e fiscal. Isso deve durar um bom período”, disse ao Estado

“Não é substituir a produção brasileira. O objetivo é substituir a importação de fora do Mercosul, no caso, da China. Aí é que está o segredo dessa parceria entre o Paraguai e o Brasil”, defendeu o presidente do BC.

A ideia, segundo o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Thomas Zanotto, é a que a federação tem defendido. “Não é levar toda a indústria brasileira para o Paraguai. Mas em vez de se fechar uma fábrica na América do Sul e virar um distribuidor de produtos asiáticos, (a ideia é que) a empresa possa fazer parte de sua produção no Paraguai, onde alguns tipos de produtos têm custos comparáveis aos da Ásia”, afirmou Zanotto, ao Estado. Segundo ele, na indústria têxtil, por exemplo, pode-se produzir com uma economia de até 35% com relação ao Brasil. 

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