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Michel Euler/AP

Paris homenageia vítimas de atentados

Cerimônia foi primeira grande manifestação pública autorizada em meio ao estado de emergência; vida cultural e boêmia retomam fôlego

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Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS,
O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2016 | 19h23

Em meio ao estado de emergência, o governo da França realizou neste domingo, 10, em Paris uma última homenagem pelo primeiro ano dos atentados de 2015. Com a presença do presidente, François Hollande, parentes de vítimas se reuniram em uma cerimônia realizada na Praça da República, símbolo da união nacional. Pela primeira vez desde 13 de novembro, o evento foi aberto a uma multidão, embora ainda sob forte controle da polícia.

Além de marcar o primeiro aniversário da manifestação de 11 de janeiro de 2015, quando mais de 6 milhões de pessoas foram às ruas da França, a homenagem acabou servindo como mais um passo em direção à retomada da vida normal em Paris. 

Ao lado do primeiro-ministro, Manuel Valls, da maior parte de seus ministros, de senadores, deputados e artistas, Hollande não discursou, mas protagonizou a solenidade, cujo ponto alto foi a leitura de um texto de Victor Hugo, de 1870, que dizia: “Unamo-nos todos em torno da república frente à invasão, e sejamos irmãos. Nós venceremos. É pela fraternidade que salvaremos a liberdade”.

Uma pequena multidão de franceses acompanhou o evento, separada por um cordão de isolamento e pela presença ostensiva da polícia, que controlou o acesso à reunião. No final, famílias e público deixaram a Praça da República pelas mesmas saídas. 

“Eu realmente quis estar nesta cerimônia para mostrar que estamos unidos”, afirmou Gilles, sobrevivente do atentado de 13 de novembro ao restaurante Le Carillon, ao Estado. Ainda em cadeira de rodas, em razão dos ferimentos, o jovem deixou o hospital para participar do evento. “É preciso avançar, guardar o moral, manter a união e, se formos todos na mesma direção, tudo vai correr bem”, disse.

Para o ex-prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, os franceses precisam ter em mente “o testemunho de solidariedade que o mundo todo nos deu”. “(O terror) É uma provação coletiva, contra a qual responderemos com gosto pela vida, apreço pelo outro e pelo que une a humanidade”, afirmou.

Um ano após os ataques contra o jornal Charlie Hebdo e um supermercado judeu, que deixaram 17 mortos, e pouco menos de dois meses após os atentados de 13 de novembro, que somaram outras 130 vítimas, o momento é de retomada paulatina da normalidade em Paris. 

Volta às ruas. Cerca de 10 mil militares ainda reforçam a segurança na capital, mas o público está de volta. A frequentação de museus como Louvre, Picasso ou Rodin voltou a subir. A mesma retomada ocorre em cafés e restaurantes – embora não na maioria dos locais atacados em novembro. 

Na comunidade judaica, a maior da Europa, com mais de 500 mil pessoas, a vida também segue seu curso. No Hyper Cacher, o supermercado atacado em que morreram quatro clientes judeus, a frequentação hoje é maior do que antes do atentado. “Foi necessário retomar a confiança dos clientes, mas em novembro de 2015 tivemos melhores resultados do que em novembro de 2014”, diz o gerente Marc Boutboul.

Sinagogas estão sob proteção policial, e bairros como o Marais, em que se concentra a comunidade judaica, são vigiados de perto, para evitar novos ataques de natureza antissemita. Mas nada disso impede que a multidão desfrute do comércio, dos museus, bares e restaurantes do bairro. “A despeito do trauma, a vida retoma seu curso”, afirmou Haim Korsia, grande rabino da França, em entrevista à agência France Press. “Com o sentimento de fraternidade renovada, o 11 de janeiro de 2015 quebrou em mil pedaços o muro de indiferença que havia sido criado pela sociedade civil.”

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