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Parlamento da Crimeia aprova adesão à Rússia e Obama diz que ato é ilegal

Andrei Netto, Enviado Especial / Simferopol, Ucrânia

06 Março 2014 | 07h 57

Região autônoma marca referendo para consolidar decisão no dia 16; presidente americano telefona para Putin e pede solução diplomática para a crise

(Atualizada às 23h) SIMFEROPOL, UCRÂNIA - O Parlamento da Crimeia, região com maior grau de autonomia da Ucrânia, aprovou na quinta-feira, 6, por unanimidade a adesão do território à Rússia. A iniciativa foi comemorada por manifestantes que foram às ruas de Simferopol, capital da região, e Sebastopol, cidade onde fica a base naval russa, mas ampliou a crise política que ameaça dividir o país.

No documento aprovado pelos legisladores constam dez reformas. Além da secessão da Ucrânia e da adesão à Federação Russa, um artigo antecipa o referendo popular sobre mais autonomia ou a separação definitiva de 30 para 16 de março.

Líderes em Kiev, na Europa e nos EUA denunciaram a "ilegalidade" da decisão. O presidente americano, Barack Obama, afirmou que a votação popular prevista para confirmar a devolução da Crimeia à Rússia "viola as leis internacionais". Mais tarde, em telefonema de uma hora, ele pediu que Putin aceite uma solução diplomática para a crise.

Na segunda conversa entre eles por telefone em seis dias, Obama voltou a dizer que a incursão russa era uma violação da soberania ucraniana. Durante a ligação, o americano definiu os termos de um acordo para o fim do impasse: recuo das tropas russas, permissão para entrada de monitores internacionais e conversas diretas com autoridades da Ucrânia.

Território russófono cedido pela União Soviética à Ucrânia em 1954, a Crimeia desfruta de uma condição privilegiada em relação às 24 regiões administrativas do país. É a única com status de república autônoma.

A resolução foi votada e aprovada em um Parlamento isolado por soldados de origem russa, mas sem identificação aparente, e milícias voluntárias cossacas, que impediram a entrada de estrangeiros. Questionado pela reportagem do Estado, que pediu para ingressar para entrevistar legisladores, um dos "seguranças" respondeu: "Só russos podem entrar".

Também em frente ao prédio, centenas de pessoas acompanharam a votação e comemoraram o resultado. "Respeito o movimento na Praça da Independência, de Kiev, mas considero esse governo ilegal", disse o empresário Oleksander Fliomin, de 30 anos. "A melhor escolha é dividir o país e cada um faz o que achar mais correto".

Além de explicações políticas e culturais, alguns evocavam razões financeiras para apoiar os deputados. "Eu sou pró-Rússia e apoio a decisão dos parlamentares porque, para mim, é a melhor escolha econômica para a Crimeia", disse Nastya Anush, estudante de 16 anos.

Enquanto em Simferopol e Sebastopol a população manifestava sua satisfação, em Kiev e Moscou as reações não tardaram. Poucas horas após a votação, o Kremlin informou que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, "estuda" o pedido do Parlamento da Crimeia. Se quiser ampliar sua ofensiva militar, Putin contará com ampla maioria da população russa. Uma sondagem divulgada na quinta-feira mostrou que 71% dos russos apoiam mais ingerência na região, para onde o Kremlin já teria enviado 16 mil soldados, segundo informações da ONU.

Na capital ucraniana, as reações foram de indignação. "As autoridades da Crimeia são ilegítimas, sejam do Parlamento ou do governo", disse o presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov. "Suas decisões são ditadas pelo medo."

Ao longo do dia, chanceleres deixaram claro que o impasse político sobre o futuro da Ucrânia está longe de ser resolvido. Em Roma, onde se reuniram, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e o secretário de Estado americano, John Kerry, não avançaram no segundo dia de negociações.