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Parlamento Europeu acusa Marine Le Pen de empregar assessores em postos fictícios

Denúncia contra a líder do partido de extrema direita Frente Nacional é mais um escândalo envolvendo probidade de candidatos ao Palácio do Eliseu; François Fillon responde por crime semelhante

Andrei Netto / Correspondente, Paris, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2017 | 21h16

O vazamento de um relatório do Parlamento Europeu confirmou nesta sexta-feira, 17, que a eurodeputada e candidata à presidência da França, Marine Le Pen, da Frente Nacional (extrema direita), teria empregado assessores do partido como se fossem membros de seu gabinete no legislativo de Estrasburgo – cuja existência ela combate.

O documento foi produzido pelo Organismo Anti-Fraudes da União Europeia (OLAF) e foi revelado pela revista Marianne e pelo website Mediapart. A investigação lança sobre a candidata nacionalista suspeitas de fraude semelhantes às que já atingem François Fillon, candidato do partido Republicanos (direita). 

O relatório do OLAF tem 28 páginas e avalia as perdas causadas diretamente por Marine Le Pen em € 339,9 mil. Em resposta ao caso, o legislativo decidiu bloquear metade de seus vencimentos, 100% de suas ajudas de custo e 50% de suas diárias a partir de fevereiro se a eurodeputada não saudar o devido, com o intuito de recuperar um total de € 298,4 mil em recursos que teriam sido desviados de forma imprópria. Outros dois eurodeputados do partido, o pai de Marine e fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, que deveria € 320 mil, e seu fiel aliado Bruno Gollnisch, também com dívidas na casa das centenas de milhares de euros, foram flagrados na malha fina. 

O documento do OLAF indica que o registro como empregados do Parlamento Europeu assessores que não tinham atividades em Estrasburgo era uma prática disseminada entre deputados da Frente Nacional. Pelo regulamento interno do legislativo, um assessor deve ter residência fixa em uma das três cidades que sediam o Parlamento, Estrasburgo, Bruxelas ou Luxemburgo. A regra permitiu ao OLAF rastrear quais dos supostos membros de gabinetes de deputados da Frente Nacional eram de fato ligados à instituição – o que permitiu que a fraude começasse a ser desvendada.

No caso de Marine Le Pen, dois assessores diretos, Catherine Griset, que trabalha na sede do FN na periferia de Paris, e o segurança Thierry Légier, guarda-costas da família Le Pen – primeiro de seu pai, Jean-Marie, e a seguir da atual candidata –, tinham contratos fictícios que levavam o erário do Parlamento Europeu, já que não eram de fato funcionários da instituição, segundo os investigadores do OLAF.

"A investigação revelou que a deputada Marine Le Pen criou um contrato de trabalho puramente fictício", diz o documento. "Le Pen empregou pelo parlamento europeu Catherine Griset em um posto de assistente parlamentar credenciada em Bruxelas quando ela era sua assistente pessoal na sede do partido na França desde 2010", explica o relatório, que alega ainda que Marine Le Pen teria admitido a irregularidade das contratações.

O documento foi encaminhado ao Ministério Público da França, que abriu em 15 de dezembro um inquérito por "trabalho dissimulado, abuso de confiança, falsificação de documentos, desvios de fundos públicos e fraude organizada".

Em meio à turbulência que atingiu sua campanha, Marine Le Pen falou hoje pela primeira vez aos jornalistas sobre o escândalo. Ela disse ter feito uma queixa contra os investigadores porque ela jamais teria admitido a irregularidade. "Eu nunca encontrei os investigadores da OLAF, porque nunca fui convocada", argumentou. Segundo a candidata, os contratos de fato existem, mas corresponderia à regularização de salários devidos pelo Parlamento Europeu.

Em uma campanha marcada por escândalos e reviravoltas, o ex-primeiro-ministro François Fillon, candidato ao Palácio do Eliseu pelo partido Republicanos, também enfrenta denúncias semelhantes. Ele teria empregado, em postos fantasmas, a mulher e dois filhos ao longo do tempo em que foi deputado na Assembleia Nacional francesa. Fillon alega que empregar parentes não é ilegal na França, mas o Ministério Público Financeiro se prepara para denunciá-lo por crime de corrupção por empregos fictícios. 

Desde que o escândalo envolvendo Fillon começou, Marine Le Pen evitava atacar o candidato republicano sobre o tema. Mesmo com as denúncias, a líder nacionalista de direita continua à frente das pesquisas de opinião, com 26% das intenções de voto, segundo sondagem realizada pelo Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris.

 

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