REUTERS/Albert Gea
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Partido Ciudadanos vence com apoio de ‘espanhóis’

Legenda foi a que mais cadeiras obteve, mas sua líder não poderá assumir o governo catalão, pois não tem maioria

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 23h58

O engenheiro andaluz Javier Morales foi um dos dez primeiros a votar em sua seção eleitoral. Morador de Barcelona, não fala catalão, mas, bem integrado à cidade, não sentiu os efeitos da tão falada “fratura social” entre independentistas e unionistas ao longo dos meses de crise política. Eleitor “constitucionalista”, pró-Espanha, fez questão de votar nesta quinta-feira, como forma de “tentar evitar” o caos institucional que se abateu sobre a região. 

“Compreendo o sentimento independentista, e se fosse nascido em Barcelona provavelmente faria parte do movimento”, admite. “Mas o que é frustrante é a forma como eles agiram nos últimos meses, sabendo que a população está dividida. Não se pode impor algo tão importante quanto a independência a uma metade da população.”

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Morales faz parte de um perfil particular de eleitor da Catalunha: o de espanhóis nascidos fora da região que têm direito a voto no pleito local. Por uma particularidade demográfica, a imigração interna na Espanha, uma grande fatia da opinião pública catalã – 36% do total – não é nascida em Barcelona e outras cidades da região.

Em nenhuma outra comunidade autônoma espanhola a influência dos nascidos em outras regiões é tão forte quanto na Catalunha. Com base em números do Instituto de Estatística local, projeções indicam que nada menos de 1,94 milhão de eleitores, de um universo de 5,5 milhões, não nasceram em solo catalão.

São pessoas como Morales ou ainda J.P., comerciária peruana naturalizada espanhola, que ontem contava as horas de seu trabalho para tentar correr a uma seção eleitoral e poder exercer seu direito de votar. “Não entendo muito de política, para dizer a verdade. Mas a coisa foi tão séria nos últimos meses que não posso deixar de me manifestar”, disse ela no final da tarde, quando ainda estava indecisa sobre em que partido votar – mas certamente por um favorável à união com a Espanha.

Essa massa eleitoral “estrangeira” na Catalunha é um dos principais capitais políticos do partido que mais cresceu na eleição de ontem. Liderado pela advogada Ines Arrimadas, de 36 anos, o Ciudadanos, legenda criada em Barcelona para lutar contra o independentismo, tornou-se ontem a maior força política da região.

Mas nem o fato de contar o forte apoio do eleitorado não catalão, nem a maior bancada do Parlamento, com 37 deputados, lhe garantirá a condição de tornar-se governadora. Isso ocorre porque os partidos “constitucionalistas” não obtiveram a maioria dos assentos no Legislativo.

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