AP Photo/Martin Meissner
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Partido de Merkel propõe rever direitos de imigrantes antes de eleição de 2017

Crescimento do apoio a movimentos nacionalistas repercute em estratégia de legenda da chanceler; um dia depois de defender proibição da burca, conservadores apresentam plano para obrigar jovens com dupla nacionalidade a escolher uma delas

Jamil Chade Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2016 | 05h00

De olho nas eleições em 2017, o partido da chanceler alemã Angela Merkel endureceu ontem sua posição em relação a imigrantes, adotando uma série de novas propostas e elevando a crítica contra estrangeiros que não cumprem as leis. Parte do grupo conservador também quer limites à dupla nacionalidade, numa mudança de rumo em comparação com a política recente de abertura de fronteiras. 

Reunida em seu congresso anual em Essen, a União Democrática Cristã (CDU, na sigla em alemão) elevou o tom contra imigrantes. A posição foi adotada após Merkel ter anunciado que disputará um quarto mandato consecutivo nas eleições nacionais e tenta frear a popularidade cada vez maior de grupos de extrema direita.

Merkel foi uma das poucas chefes de governo a sobreviver à crise econômica na Europa e ao fluxo de refugiados, mas seu partido reconheceu que vem perdendo espaço num cenário onde políticos populistas ganham terreno em muitos países. 

Em 2015, Merkel chegou a ser cotada para o prêmio Nobel da Paz depois de abrir as fronteiras para refugiados sírios. Com a entrada de 890 mil pessoas, a chanceler acabou sendo alvo de críticas de seu próprio partido. Sua popularidade sofreu após incidentes envolvendo estrangeiros em Colônia. 

Agora, seu partido adotou um slogan que reflete essa nova etapa, que visa a atrair o eleitor conservador alemão: “Nossos valores. Nosso Futuro”. As medidas foram tomadas um dia depois de a própria Merkel defender o banimento da burca “em todos os lugares que seja legalmente possível”. 

Ontem, mais um passo nessa direção foi tomado. O CDU aprovou uma resolução condenando estrangeiros que cometam crimes, como assassinatos por honra e casamentos forçados. Dados oficiais apontam que um total de 1,4 mil casamentos envolvendo menores foram registrados em um ano. Na resolução, os delegados pedem que os autores de tais atos sejam “processados rigorosamente”. Pela primeira vez, o partido também admite que houve um aumento da criminalidade desde a entrada massiva de estrangeiros. 

Estratégia. Pelos cálculos do CDU, Merkel pode perder votos para a extrema direita se não mudar de atitude em relação aos estrangeiros. Nos últimos meses, o grupo Alternativa para a Alemanha ganhou força. 

A estratégia de Merkel é manter a aliança com a União Social-Cristã da Baviera, que defende uma posição mais dura em relação à imigração. Juntos, os dois partidos teriam 37% das intenções de voto, contra 15% dos Social-Democratas (SPD). 

O grupo da Baviera condiciona uma nova aliança a uma modificação da posição de Merkel sobre os estrangeiros. Irritados com a política de “braços abertos” aos refugiados, deputados como Hermann Winkler chegaram a defender uma aliança de seu partido com a Alternativa pela Alemanha, rompendo com o grupo da chanceler. 

Merkel, no entanto, hesita em abandonar a política que lhe rendeu homenagens em todo o mundo. O partido aprovou uma resolução para obrigar jovens que tenham crescido na Alemanha que decidam, aos 23 anos, se vão adotar a nacionalidade alemã ou manter a de seus pais.

A chanceler, porém, deixou claro que não está de acordo com seu próprio partido e a proposta não será adotada antes das eleições. Merkel foi reeleita presidente de seu partido com 89% dos votos. Há dois anos, ela obteve 96,7% dos votos. Ela disputará a eleição entre agosto e outubro do próximo ano.

 

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